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Visão geral resumida

  • Este texto analisa a moeda não apenas como um simples meio de troca, mas como um sistema social que combina caráter de mercadoria, crédito, poder estatal e confiança institucional.
  • A história da moeda se desenvolve em torno das perguntas “quem emite o dinheiro”, “quem garante seu valor” e “quem assume a responsabilidade em uma crise”.
  • O Banco da Inglaterra, a era dos free banks nos Estados Unidos, o Choque Nixon, a crise financeira de 2008, o Bitcoin e as stablecoins são todos exemplos que mostram os problemas de estabilidade e confiança dos sistemas monetários.
  • O Bitcoin nasceu da desconfiança em relação aos bancos centrais, mas, devido à volatilidade de preço e às limitações de processamento, tornou-se um ativo mais próximo do ouro digital do que de um meio de pagamento.
  • As stablecoins cresceram como meios de pagamento práticos, mas, por dependerem de ativos de reserva e da confiança no emissor, têm riscos semelhantes aos das notas emitidas por free banks no século XIX.
  • O autor compara um modelo centrado em moedas privadas, um modelo totalmente baseado em moeda pública e um modelo híbrido público-privado como futuros possíveis para as moedas digitais, e apresenta o modelo híbrido como a direção mais realista.

Introdução

  • Este texto interpreta Bitcoin, imóveis, stablecoins e CBDCs, presentes no cotidiano das pessoas modernas, dentro de um único fluxo histórico da moeda.
  • A questão central não é “o que é dinheiro”, mas como o dinheiro é criado na sociedade moderna, quem o garante e que riscos ele gera.
  • O autor vê o debate sobre moedas digitais não como uma questão de tecnologia de ponta, mas como uma nova forma de problemas antigos que os regimes monetários do passado repetidamente enfrentaram.
  • O texto se desenvolve na seguinte ordem: a essência da moeda, o surgimento dos bancos centrais, o experimento dos free banks, o colapso do padrão-ouro, a expansão do crédito, a crise de 2008, o surgimento das criptomoedas e o futuro das moedas digitais.

Desenvolvimento

1. Dinheiro é a combinação de mercadoria, dívida e promessa do Estado

  • O texto apresenta três explicações sobre a moeda.

    • Teoria da moeda-mercadoria: a visão de que o dinheiro começou como mercadorias com valor intrínseco, como ouro e prata.
    • Teoria da moeda de crédito: a visão de que o dinheiro é a dívida de alguém e um registro das relações sociais de confiança.
    • Teoria da moeda soberana: a visão de que o dinheiro circula porque o Estado o reconhece como meio de pagamento de impostos.
  • O autor considera que nenhuma dessas três perspectivas, isoladamente, consegue explicar a moeda moderna.

  • A moeda moderna é um sistema complexo que combina a confiança estatal no banco central, a criação de crédito pelos bancos privados e as expectativas sociais de estabilidade de valor.

  • Portanto, a essência do dinheiro não está em um objeto, mas se aproxima de uma estrutura institucionalizada de confiança e poder.

2. O Banco da Inglaterra é o protótipo da moeda do capitalismo moderno

  • Fundado em 1694, o Banco da Inglaterra começou como uma empresa privada, mas evoluiu para uma instituição central que conecta as finanças do Estado ao crédito privado.

  • As notas do Banco da Inglaterra tinham simultaneamente três características.

    • Um caráter de moeda-mercadoria, por poderem ser trocadas por ouro
    • Um caráter de moeda de crédito, por serem uma dívida emitida pelo banco
    • Um caráter de moeda soberana, por serem aceitas como meio de pagamento de impostos
  • Essa estrutura é o ponto de partida de um modelo monetário híbrido que combina confiança pública e criação de crédito privado.

  • O modelo do Banco da Inglaterra possibilitou a Revolução Industrial e o fornecimento de recursos para investimentos de longo prazo, mas também incorporava o risco estrutural da pró-ciclicidade da criação privada de crédito.

3. A era dos free banks mostra os limites da moeda privada

  • Na era dos free banks nos Estados Unidos do século XIX, diversos bancos privados emitiam suas próprias notas.
  • Nesse período, circularam mais de cerca de 8.000 tipos de notas bancárias, e mesmo notas de 1 dólar eram negociadas por valores diferentes conforme a credibilidade do banco emissor.
  • Esse caso mostra que a unicidade, uma condição essencial da moeda, é difícil de manter apenas pela autonomia do mercado.
  • O caso dos wildcat banks mostra que, mesmo havendo garantias, o sistema monetário pode colapsar se a confiança no emissor e o valor dos ativos de reserva forem abalados.
  • O autor conecta essa era dos free banks às stablecoins do século XXI.
  • As stablecoins também são interpretadas como uma versão digital das notas dos free banks, na medida em que emissores privados emitem tokens digitais com base em ativos de reserva.

4. O Choque Nixon rompeu a âncora externa

  • Em 15 de agosto de 1971, o presidente dos EUA, Nixon, anunciou a suspensão da conversibilidade do dólar em ouro.
  • Com essa decisão, o sistema de Bretton Woods praticamente colapsou, e as principais moedas do mundo se tornaram moedas fiduciárias puras, sem vínculo com o ouro.
  • Com o desaparecimento da âncora externa do ouro, bancos centrais e governos passaram a poder conduzir políticas monetárias mais flexíveis.
  • Ao mesmo tempo, porém, a expansão do crédito e a instabilidade financeira aumentaram.
  • O autor analisa que, após 1971, a economia mundial passou a depender mais intensamente de dívida e crédito, e que os preços de imóveis e ativos financeiros se tornaram questões centrais do sistema monetário.

5. Imóveis e shadow banking são resultados da expansão do crédito

  • Depois de 1971, o centro dos empréstimos bancários se deslocou gradualmente das atividades produtivas das empresas para empréstimos com garantia imobiliária.
  • A alta dos preços dos imóveis eleva o valor das garantias, e a valorização das garantias, por sua vez, gera nova expansão dos empréstimos, criando uma estrutura de reforço mútuo.
  • Essa estrutura eleva os preços dos ativos durante os ciclos de alta, mas, nos ciclos de baixa, amplifica simultaneamente a contração do crédito e a queda dos preços.
  • O shadow banking é um sistema financeiro que desempenha funções semelhantes às dos bancos fora do sistema bancário tradicional.
  • Fundos do mercado monetário, títulos lastreados em ativos e operações compromissadas funcionavam como dinheiro, mas estavam fora do seguro de depósitos e da rede de segurança do banco central.
  • A crise financeira de 2008 é apresentada como um caso representativo causado pela combinação entre a expansão do crédito imobiliário e o shadow banking.

6. A crise financeira de 2008 revelou a hierarquia da moeda

  • Após a falência do Lehman Brothers em 2008, participantes do mercado migraram rapidamente de ativos de risco para ativos seguros.
  • Nesse processo, ficou evidente que várias formas de dinheiro, que em tempos normais pareciam semelhantes, na realidade ocupavam posições diferentes em uma hierarquia.
  • Depósitos bancários, fundos do mercado monetário, debêntures, títulos públicos e a base monetária do banco central não têm o mesmo nível de segurança.
  • Em momentos de crise, as pessoas migram de moedas inferiores para moedas superiores.
  • Com isso, o autor explica que o sistema monetário possui uma hierarquia intrínseca, e que no topo dela estão o banco central e o Estado.

7. O Bitcoin é produto da desconfiança nos bancos centrais, mas dificilmente se torna moeda

  • O Bitcoin surgiu logo após a crise financeira de 2008, em meio à desconfiança em relação ao sistema financeiro existente.
  • Satoshi Nakamoto tinha como objetivo criar dinheiro eletrônico que funcionasse sem intermediários de confiança, como bancos, bancos centrais e governos.
  • O Bitcoin tem características semelhantes às do ouro digital por meio de limite de oferta, mineração e estrutura descentralizada.
  • No entanto, por ter grande volatilidade de preço e velocidade limitada de processamento de transações, é difícil usá-lo como meio de pagamento cotidiano.
  • Como resultado, o Bitcoin se deslocou para uma posição mais próxima de reserva de valor ou ativo especulativo do que de moeda.
  • O autor interpreta isso como “um caso em que a visão de Satoshi resultou não em uma moeda de pagamento, mas em ouro digital”.

8. As stablecoins ganharam utilidade, mas reacenderam o problema da confiança

  • As stablecoins procuram resolver o problema da volatilidade de preço do Bitcoin ao fixar seu valor a moedas fiduciárias existentes, como o dólar.
  • Elas atendem a demandas reais em remessas internacionais, pagamentos de agentes de IA, pagamentos de tokenização de ativos reais e outros usos.
  • No entanto, as stablecoins exigem confiança no emissor e nos ativos de reserva.
  • Isso significa reaceitar o emissor centralizado, a dependência de moedas nacionais e o problema da confiança que o Bitcoin tentou rejeitar.
  • O colapso da Terra e a perda temporária de paridade da USDC são apresentados como casos que mostram que stablecoins não são moedas completamente seguras.
  • O autor considera que, assim como as notas dos free banks do século XIX, as stablecoins podem se tornar instáveis em crises sem salvaguardas públicas.

9. CBDC é o dinheiro digital no topo da hierarquia monetária

  • CBDC é uma moeda digital emitida diretamente pelo banco central.
  • Do ponto de vista da hierarquia, uma CBDC corresponde à moeda do banco central, situada acima dos depósitos de bancos privados ou das stablecoins.
  • CBDCs podem fortalecer a unicidade da moeda e a estabilidade dos pagamentos.
  • No entanto, uma estrutura em que toda a moeda é emitida diretamente pelo banco central pode enfraquecer a função de criação de crédito dos bancos privados.
  • Também podem surgir problemas relacionados a privacidade, intermediação financeira e concentração de poder no governo.
  • Portanto, CBDCs devem ser tratadas não como uma simples adoção tecnológica, mas como uma escolha institucional que altera a estrutura de poder de todo o sistema monetário.

10. O futuro das moedas digitais se divide em três caminhos

  • O autor organiza o futuro das moedas digitais em três caminhos.

    • Modelo centrado em moedas privadas: um futuro liderado pelo mercado, centrado em Bitcoin e stablecoins.
    • Modelo totalmente baseado em moeda pública: um futuro em que o banco central emite diretamente moedas digitais e substitui a moeda dos bancos privados.
    • Modelo híbrido: um futuro em que o banco central oferece a segurança do topo da hierarquia, enquanto o setor privado cuida da inovação em pagamentos e da oferta de crédito.
  • O modelo centrado em moedas privadas tem inovação e eficiência como vantagens, mas é fraco em unicidade e capacidade de resposta a crises.

  • O modelo totalmente baseado em moeda pública pode reforçar a estabilidade e o caráter público, mas corre o risco de concentrar excessivamente no Estado a criação de crédito e as funções de intermediação financeira.

  • O modelo híbrido é uma forma de redesenhar para o ambiente digital uma estrutura historicamente comprovada de combinação público-privada.

  • O autor considera que, pela experiência da história monetária, o modelo híbrido é a escolha mais realista e estável.

Conclusão

  • O argumento central deste texto é que a moeda não é uma simples tecnologia ou ativo, mas um sistema que combina confiança institucionalizada, responsabilidade pública e criação privada de crédito.

  • A lição recorrente da história monetária é clara.

    • Quando o setor privado emite dinheiro livremente, surge inovação, mas a unicidade e a estabilidade enfraquecem.
    • Quando o banco central assume tudo diretamente, a estabilidade pode aumentar, mas a flexibilidade da economia e a inovação privada podem enfraquecer.
    • Um sistema monetário estável funciona sobre o equilíbrio entre salvaguardas públicas e criação privada de crédito.
  • O Bitcoin foi uma contestação legítima ao poder monetário centralizado, mas tem limites como alternativa ao sistema monetário real.

  • As stablecoins atendem a demandas reais da economia digital, mas, se se expandirem sem uma rede de segurança pública, podem repetir os riscos da era dos free banks.

  • CBDCs são ferramentas poderosas para digitalizar o topo da hierarquia monetária, mas sua adoção plena traz grandes mudanças à estrutura financeira e à distribuição de poder.

  • Portanto, a tarefa central da era das moedas digitais não é escolher uma tecnologia específica, mas como desenhar a hierarquia da moeda e como combinar interesse público e inovação.

  • A conclusão apresentada pelo autor é que, na era digital, o sistema monetário deve evoluir para um modelo híbrido que combine a estabilidade pública dos bancos centrais, a inovação privada em pagamentos e uma estrutura institucional de regulação e responsabilidade.

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