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  • O passeio a pé pelo centro de Seattle identifica, em um trajeto de 1,3 milha, camadas de coleta de dados que ficam expostas, mas pouco visíveis, dentro da cidade “inteligente”, como câmeras de vigilância, Amazon Go, ALPR, Acyclica, o Washington State Fusion Center e um site de peering da AT&T
  • Câmeras de vigilância e Amazon Go podem registrar, analisar e compartilhar dados de imagem, compra e deslocamento; o Amazon Go pode rastrear o comportamento dentro da loja por meio de câmeras no teto e entrada via app, combinando isso com compras online para aumentar seu poder preditivo
  • ALPR envia para um banco de dados a hora, o local e o número da placa de todos os veículos que passam; em Seattle há pelo menos 99 unidades fixas da SDOT e 19 veículos equipados da SPD, e o sistema da SDOT coleta 37 mil placas em 24 horas, ou 13,5 milhões de leituras por ano
  • Acyclica e o Washington State Fusion Center podem combinar informações sobre deslocamento e atividade por meio do histórico de localização de endereços MAC obtido de pacotes de sondagem Wi‑Fi e do acesso a vários bancos de dados públicos e privados; consentimento, retenção e escopo de compartilhamento são os principais riscos
  • O site de peering da AT&T é o local onde operadoras trocam informações digitais como e-mail, chamadas telefônicas e chats na internet, e a infraestrutura de vigilância de Seattle revela uma estrutura em que camadas privadas, municipais, estaduais, públicas, federais e corporativas tratam dados de maneiras diferentes

Objetivo e escopo do passeio

  • O trajeto de 1,3 milha pelo centro de Seattle é estruturado como um exercício de identificação, em campo, das camadas da cidade “inteligente”, camadas que coletam e armazenam dados da vida cotidiana e se conectam a uma forma de pensar que justifica sua própria existência
  • Cada tecnologia de vigilância é apresentada para identificação no local por meio de endereço, aparência, função, modo de operação, significado social e perguntas para discussão
  • Os alvos são câmeras de vigilância, Amazon Go, leitores automáticos de placas, Acyclica, Washington State Fusion Center e o site de peering da AT&T

Câmeras e rastreamento em lojas

  • Câmeras de vigilância podem ser vistas em postes, corrimãos, beirais, telhados, estacionamentos, entradas, bancos, cruzamentos, prédios do governo, tetos internos e perto de caixas, e a câmera da 523 Union St é usada como exemplo
  • As câmeras podem registrar vídeo ou outros dados e adicioná-los a um repositório acumulado de registros
  • Câmeras conectadas à rede podem enviar imagens para qualquer lugar via internet ou radiofrequência, receber comandos de qualquer lugar e permitir que outras pessoas assistam ao stream de qualquer lugar
  • Registros de câmeras podem ser usados para análise de padrões e compartilhamento, e os destinatários podem ser atores privados como vizinhos e atores públicos como a polícia local
  • Nas câmeras de vigilância pode ser codificado um olhar que impõe o que é considerado comportamento e pessoa “normais”, e esse olhar pode se espalhar por toda a rede de aplicação à qual a câmera está conectada
  • O Amazon Go fica na 2131 7th Ave e, embora pareça uma loja de conveniência, exige escanear o app para entrar e não tem caixa
  • O Amazon Go rastreia os movimentos dos consumidores dentro da loja com câmeras no teto para entender hábitos de navegação
  • A Amazon pode conhecer mais sobre os usuários a partir de padrões de compra, inferindo, por exemplo, que quem compra enfeites de Hanukkah pode ser judeu, ou associando certos alimentos a determinados problemas de saúde
  • Os dados de compras em loja do Amazon Go podem ser combinados com compras online na Amazon, ampliando ainda mais o poder preditivo
  • Padrões podem reforçar estereótipos, e o caso em que o Google Photos classificou fotos de pessoas negras como “gorilla” mostra o risco
  • Não há supervisão nem transparência sobre o que a Amazon faz com o conhecimento que obtém sobre os usuários, e os dados podem ser vendidos a terceiros sem consentimento

Rastreamento de placas e dispositivos Wi‑Fi

  • O leitor automático de placas (ALPR) é uma pequena câmera instalada em postes em locais de tráfego intenso quando fixa, ou em cima de viaturas policiais quando móvel
  • O ALPR fotografa a placa de todos os veículos que passam e envia para um banco de dados a hora, o local e o número da placa, permitindo que órgãos ajam com base em informações como “ABC1234 detectada no cruzamento de Pike com Pine às 13h20”
  • Em Seattle há três tipos: ALPR fixo da SDOT, ALPR móvel da SPD para fiscalização de estacionamento e ALPR móvel da SPD para aplicação da lei
  • O ALPR fixo da SDOT é usado para fins de tráfego e estimativa de tempo de deslocamento, enquanto o ALPR da SPD para aplicação da lei pode alertar diretamente policiais ao encontrar uma placa “procurada”
  • Diz-se que os dados do ALPR policial podem ser armazenados por até 90 dias, enquanto outros dados de ALPR seriam apagados imediatamente
  • Em Seattle há pelo menos 99 ALPRs fixos do Seattle Department of Transportation e 19 veículos do Seattle Police Department equipados com o sistema
  • O sistema ALPR da SDOT funciona 24 horas por dia e coleta 37 mil placas em 24 horas, ou 13,5 milhões de leituras por ano
  • O ALPR coleta indiscriminadamente placas inclusive de veículos não suspeitos de crime, e em nível nacional bilhões de placas são coletadas todos os anos
  • Há pouca ou nenhuma regulação, tanto nos EUA quanto em Seattle, sobre o uso do ALPR e os dados coletados, e os órgãos proprietários do sistema podem decidir sobre retenção de dados e rastreamento de deslocamento de veículos
  • Segundo a EFF, muitas agências de aplicação da lei compartilham diretamente dados de placas entre si, inclusive além de fronteiras
  • Dados de ALPR também entram em bancos de dados privados, como o Thomson Reuters CLEAR, e órgãos e empresas privadas podem comprar acesso
  • Em Seattle, SDOT e SPD dizem não compartilhar diretamente os dados de seus sistemas ALPR, mas não está claro quais órgãos podem obter acesso mediante solicitação
  • O ALPR é uma tecnologia de vigilância antiga, inventada e testada pela primeira vez no Reino Unido em 1984 para localizar veículos roubados, e usa reconhecimento óptico de caracteres (OCR) da visão computacional para estimar probabilisticamente letras e números em fotos de placas
  • Dados de placas carregam o risco de ampliação de escopo (scope creep), passando a ser usados fora de seu contexto e propósito originais, como em investigações privadas ou publicidade direcionada
  • Em 2015, Califórnia e Minnesota aprovaram leis rígidas limitando o compartilhamento de dados de ALPR, e Minnesota também proibiu que órgãos de aplicação da lei fotografassem os ocupantes dos veículos
  • A Acyclica fica nas esquinas de Spring & 5th e Spring & 4th e aparece como um dispositivo circular preto e achatado sobre a caixa de controle do semáforo
  • O dispositivo da Acyclica cria uma rede Wi‑Fi falsa e rastreia celulares dentro de veículos que tentam se conectar à rede ao passar pelo local
  • Celulares têm um identificador único chamado endereço MAC, e vários pontos de instalação da Acyclica podem rastrear a localização de uma pessoa ao atravessar a cidade
  • Celulares e notebooks emitem pacotes de sondagem (probe packets) para conexão automática a Wi‑Fi, e esses pacotes incluem o endereço MAC e uma lista de redes Wi‑Fi às quais o dispositivo já tentou se conectar
  • A Acyclica escuta os pacotes de sondagem e registra onde o mesmo endereço MAC foi ouvido, criando um histórico de localização
  • Não foi pedido consentimento ao público antes da instalação da Acyclica, e questões de privacidade e consentimento de dados tornam-se centrais
  • O governo municipal de Seattle pode fazer promessas sobre os dados, mas historicamente dados coletados por órgãos públicos podem ser mantidos por mais tempo do que o prometido ou compartilhados com ICE, agências de aplicação da lei ou atores semiprivados como a Palantir, sendo usados para restringir a mobilidade de comunidades marginalizadas

Washington State Fusion Center

  • O Washington State Fusion Center (WSFC) fica no Abraham Lincoln Building, em 1110 3rd Ave, Seattle, e é um espaço onde se senta uma equipe de 15 a 30 pessoas, incluindo agentes de inteligência em tempo integral do Seattle Police, do County Sheriff e investigadores e analistas estaduais
  • Funcionários do WSFC estão conectados a todas as agências de aplicação da lei do estado por meio da State Intelligence Network e têm acesso ao FBI Field Intelligence Group e à Puget Sound Joint Terrorism Task Force por sistemas computacionais e canais seguros
  • Os Fusion Centers surgiram após o 11 de Setembro, junto com o Intelligence Reform and Terrorism Prevention Act de 2004, e cresceram dos 18 centros iniciais para 78 centros reconhecidos atualmente
  • Os Fusion Centers apoiam uma estratégia nacional de contraterrorismo que promove o compartilhamento de inteligência entre agências locais e nacionais, empresas privadas e forças armadas
  • A maioria dos Fusion Centers fica em áreas centrais das cidades, onde se reúnem segurança pública, bombeiros, resposta a emergências, provedores de saúde pública e agências privadas de segurança
  • Os Fusion Centers são obrigados a incluir participação do setor privado, e suas prioridades se dividem entre interesses locais, federais e privados
  • Violações de privacidade e vigilância política aparecem como preocupações associadas aos Fusion Centers, e Pacifying the Homeland: Intelligence Fusion and Mass Supervision, de Brendon McQuade, argumenta que o arranjo confuso de vários órgãos coordenadores dificulta revelar policiamento político à la COINTELPRO
  • No relatório da ACLU sobre Fusion Centers, resumido pelo Cato Institute, aparecem casos em que o North Texas Fusion System classificou um lobista muçulmano como ameaça potencial e a Maryland State Police colocou ativistas contra a pena de morte e contra a guerra em um banco de dados federal de terrorismo
  • Quando o Occupy Phoenix mirou a ALEC por sua relação de interesse com a ICE e por seu papel na aprovação de legislação que permitia perfilamento racial de motoristas latinos, o Arizona Fusion Center monitorou o Occupy Phoenix e designou policiais para manter contato com a ALEC
  • O ACTIC forneceu à ALEC informações incluindo uma lista de “persons of interests” relacionada a protestos contra conferências da ALEC, e essas pessoas depois se tornaram alvo de prisão
  • Os Fusion Centers não armazenam diretamente a maior parte dos dados disponíveis; em vez disso, negociam contratos para acesso remoto a bancos de dados já existentes
  • Os Fusion Centers podem contornar salvaguardas de privacidade e comprar acesso a bancos de dados privados, como o banco de ALPR da Vigilant, obtendo muitas informações sobre pessoas sem antecedentes criminais
  • Os bancos de dados usados pelo WSFC incluem Law Enforcement Information Exchange (LINX), FBI Systems, WAFUSION Intake Log, Regional Information Sharing System Database (RISS), Homeland Security State and Local Intelligence Community, Law Enforcement Online (LEO), Washington State Emergency Management Department e DHS Infrastructure Protection Protective Security Advisor (LENS, IRIS)
  • A estrutura distribuída, que é a força do Fusion Center, também é sua fraqueza, porque cadeias de comando fragmentadas podem criar conflito e confusão entre as agendas de órgãos concorrentes
  • Após grandes incidentes, exigências por transparência e preocupações com privacidade parecem produzir algum efeito, e pedidos de acesso a registros públicos podem servir como forma de monitorar as agendas dos atores envolvidos nas solicitações de informação dos Fusion Centers
  • O núcleo central dos Fusion Centers é financiado por verbas federais, mas programas individuais são bancados separadamente por subsídios setoriais em áreas como educação, saúde e bairros, e impedir sua criação desde o início pode ser a forma mais eficaz de intervenção
  • O caso de dois empresários europeus denunciados em 2007 em uma balsa do estado de Washington por “parecerem suspeitos” mostra a possibilidade de denúncias individuais via iniciativa Nationwide Suspicious Activity Reporting (SAR)
  • Um caso famoso em Seattle é o do estudante Phil Chinn, do Evergreen State College, preso em maio de 2007 durante protestos portuários contra a guerra; um oficial de inteligência militar se infiltrou entre os ativistas e disseminou informações sobre os manifestantes por meio do Fusion Center
  • Em Camden, a nova Camden County Police “reformada” abriu um Fusion Center chamado Real Time Tactical Operations Intelligence Center, que opera uma cidade de vigilância com câmeras, detectores de tiros ShotSpotter, ALPR e torres móveis de observação
  • Em Camden, os contatos do policiamento comunitário viram atividade de coleta de inteligência, e os fluxos de dados alimentam o Fusion Center para análises “preditivas” que enviam a polícia para quarteirões de interesse

Site de peering da AT&T e escuta da NSA

  • O site de peering da AT&T na 1122 3rd Avenue é um prédio alto, sem janelas, atrás de um ponto de ônibus, com o logotipo da AT&T e uma escultura na frente
  • Um site de peering é um prédio onde operadoras como a AT&T trocam informações digitais como e-mail, chamadas telefônicas e chats na internet
  • Como concentram informação, sites de peering se tornam bons lugares para agências de inteligência como a NSA interceptarem e registrarem dados
  • Sites de peering são edifícios importantes para máquinas, mais do que para pessoas, e por isso costumam ser altos, reforçados e sem janelas, próximos a hubs de informação no centro e muitas vezes perto de centros de aplicação da lei ou inteligência
  • Essa instalação AT&T+NSA em Seattle é uma das 8 salas de escuta (wiretap rooms) do programa de vigilância NSA FAIRVIEW abordadas pelo The Intercept
  • A AT&T é conhecida por sua “extreme willingness to help” ao auxiliar a NSA
  • A AT&T possui uma grande rede e faz peering trocando capacidade de rede com outros provedores de serviços de internet, em um arranjo em que a infraestrutura física de duas redes se encontra no mesmo prédio para trocar informações
  • A NSA pode escutar essa troca por meios não divulgados e pesquisar as comunicações coletadas

Perguntas que ficam

  • A discussão após o passeio é estruturada para perguntar como escapar da “cidade inteligente”, como a vigilância difere entre cidades dos EUA e como camadas de vigilância privadas, municipais, estaduais, públicas, federais e corporativas se distinguem e interagem
  • Cada parada em Seattle mostra não um dispositivo isolado, mas uma estrutura em que vídeo, compras, placas, identificadores Wi‑Fi, acesso interagências a dados e backbone de comunicações registram pessoas e deslocamentos em camadas diferentes

1 comentários

 
GN⁺ 3 시간 전
Comentários do Hacker News
  • Parece que isso simplesmente virou o novo normal
    Roubaram meu carro em Seattle, mas a polícia parou o sujeito enquanto ele dirigia e recuperou o carro. Dentro havia documentos com o nome dele, armas, e um uniforme de trabalho com crachá no porta-malas; ele era agente de segurança, e ainda havia testemunhas da vizinhança
    Mesmo com uma montanha de provas, a promotoria não denunciou o caso, dizendo que um júri de Seattle não condenaria sem vídeo mostrando diretamente o furto do carro. Agora os jurados se acostumaram à ideia de que, para passar do padrão de dúvida razoável, precisa haver vídeo, e às vezes nem vídeo basta

    • Acho que esse é exatamente o ponto central tratado nas reuniões em nível de cidade/condado sobre expandir a vigilância
      Crimes não são denunciados, os criminosos sabem disso, e o resultado é mais crimes e mais criminosos. Mesmo quando vão para a cadeia, muitas vezes ficam só de 24 horas a algumas semanas, e todos se conhecem, a ponto de parecer quase uma reunião de ex-alunos de acampamento
      Antes, listas BOLO, ou seja, “be on the lookout”, circulavam informalmente com grades de fotos de fichamento para que empresas e organizações pudessem se proteger por conta própria, mas agora essas fotos não são mais públicas, então nem isso dá para fazer. No fim, aumenta ainda mais o profiling baseado em aparência
      E então isso leva a ainda mais vigilância
    • Essa frase, “os jurados de Seattle se acostumaram a ter dificuldade de passar da dúvida razoável sem vídeo”, soa estranha
      Quantas vezes alguém precisa servir num júri para se acostumar com alguma coisa? Já recebi convocação algumas vezes, mas sempre fui dispensado ao verificar na noite anterior
    • Não vejo como provas em vídeo de uma rede de vigilância em grande escala teriam ajudado aqui. O carro foi encontrado sem rede de vigilância mesmo
      O problema não é a promotoria, isto é, o governo local incompetente? Ou então, mais adiante, os jurados podem passar a achar que “vídeo pode ser manipulado por um policial rancoroso”, e aí prova em vídeo também não será suficiente
    • Não acho que o objetivo desses equipamentos seja esse tipo de crime
    • Em Baltimore, minha esposa serviu em um júri de homicídio, e a prova em vídeo foi decisiva para condenar. Ela ficou chocada com a quantidade de vídeo que havia
  • Fico me perguntando o que significa a frase “diferentes maneiras de ver podem ser codificadas dentro da câmera, incluindo um olhar que impõe um consenso social sobre quais comportamentos e pessoas são considerados ‘normais’”
    A expressão “tipos de olhar” parece algo que só faz sentido para gente treinada numa crítica ética muito específica e peculiar. Para uma pessoa comum, isso soa como “esta câmera pode detectar se as pessoas estão agindo de forma estranha e perigosa”, e a maioria provavelmente gostaria disso
    O problema em Seattle é que já há muita gente agindo de forma estranha e perigosa nas ruas, a ponto de serem encontradas mesmo sem uma rede de câmeras, mas a polícia parece receber instruções rígidas para não fazer nada

    • Meu palpite é que quer dizer algo como: a forma como câmeras de vigilância normalizam/anormalizam comportamentos pode facilmente ser enviesada e antidemocrática
      Por exemplo, um bêbado urinando numa árvore é fácil de detectar e classificar, então a aplicação da lei pode se concentrar nisso, enquanto ataques verbais cruéis escondidos atrás de gestos contidos podem passar batido por falta de dados ou por serem difíceis de detectar
      Se deixarmos sistemas automáticos de vigilância julgarem pessoas, isso inevitavelmente acabará influenciando nosso próprio julgamento coletivo
    • O sentido em si é claro, mas foi expresso dentro de um enquadramento de teoria crítica, o que faz parecer mais complicado. Também lembra termos da teoria feminista como “male gaze”
      No fim, significa pegar imagens e vídeos de câmeras e atribuir juízos de valor a comportamentos
      Lendo nas entrelinhas, os autores parecem criticar abordagens de aplicação da lei contra uso/comércio de drogas, vida em tendas na rua etc.
      Só que a formulação soa como uma linguagem acadêmica especializada, e isso faz parecer automaticamente correta e autoritativa
    • É na expressão “comportamento estranho e perigoso” que o problema da vigilância começa. Quem decide o que é estranho e perigoso é a questão central
    • Há um ensaio do PG relacionado a isso: https://paulgraham.com/orth.html
    • Já li bastante teoria social e política, mas estou cansado desse tipo de linguagem. É uma forma de apresentar chavões acadêmicos e filosóficos como se fossem descobertas científicas
      Mesmo quando a ideia é interessante, a bagagem teórica atrapalha a comunicação, e o resultado, na melhor das hipóteses, fica esquisito; na pior, insuportavelmente arrogante
      Tento lembrar gentilmente aos acadêmicos que conheço o quanto esse tipo de formulação atrapalha a comunicação com quem não é da academia e bloqueia a transmissão das ideias. Honestamente, acho que muitos acadêmicos buscam inconscientemente a aprovação positiva dos colegas e acabam escorregando, sem perceber, para uma linguagem hermética de sala de aula
  • É preciso perceber que os EUA já não são mais a terra da liberdade
    Governo e grandes empresas se aliam para arrancar o máximo possível de dinheiro e monitorar para garantir que você não cometa “atos terroristas indizíveis”, como segurar o cartaz errado num protesto
    Exemplo: https://www.techradar.com/pro/quote-of-the-day-by-oracle-co-...

    • Acho que a responsabilização democrática precisa ser fortalecida, e isso exige participação
      Como cidadãos, precisamos saber quais direitos consideramos mais importantes e também como gerar mudança por meio de interesse cívico e financiamento para voto, protestos e debate
    • Talvez, pelo contrário, os EUA sejam a terra da liberdade, e sejam justamente as pessoas que agem da forma menos livre, abrindo mão da própria autonomia e poder, que gritam que ninguém é livre e acabam prejudicando os outros
      Por exemplo, nos EUA existe o direito de portar armas
      Protestos pacíficos armados já foram, historicamente, uma forma poderosa de lembrar aos que estão no poder que o poder vem acompanhado do dever de proteger o povo. Quando o poder é abusado, existe o direito de responder por meio do porte de armas, da ação legal coletiva como cidadãos e da justiça cívica. O direito de iniciar procedimentos legais não pertence apenas a autoridades eleitas estaduais, locais e federais
  • Este site tem expressões estilo escola de arte pós-moderna demais, tipo “codifica formas de ver” ou “o olhar”
    O conteúdo em si é interessante até certo ponto, mas teria sido mais acessível se usasse uma linguagem mais direta

    • Ainda não consegui organizar bem o que sinto ao ler frases que parecem presumir que o leitor é ignorante e ingênuo demais. Passa quase uma sensação de condescendência
      “Envia informações para um local central de armazenamento (chamado banco de dados)”: por acaso alguém aprendeu hoje pela primeira vez o que significa a palavra banco de dados?
      “A Amazon pode usar padrões de compra para saber mais sobre você” é novidade para quem? Soa grosseiro
      “Pode se conectar à rede (pela internet ou por radiofrequência)” também está errado, porque radiofrequência e internet não são coisas diretamente comparáveis
      Também não gosto de o site sequestrar o formato do ponteiro do mouse. Passa uma sensação parecida de não respeitar o leitor
    • É uma mistura estranha de explicar demais conceitos básicos e, ao mesmo tempo, entrar fundo em detalhes. Dá até para suspeitar que foi escrito por IA
    • Por um lado, claramente exagera um pouco
      Por outro, este texto provavelmente não foi escrito pensando em um fórum de fascistas tecnológicos primitivos como o nosso
  • Este texto tem imprecisões técnicas demais para ser levado muito a sério, e é difícil cobrir tudo aqui
    A direção geral está mais ou menos certa, mas o autor parece saber muito pouco sobre como diferenciar câmeras de vigilância e suas funções, ALPR e câmeras de controle de tráfego, e outros detalhes desse tipo

    • A frase “dispositivos da Acyclica espalham redes Wi‑Fi falsas e rastreiam celulares que tentam se conectar” já está errada, e depois disso continua com informações erradas ou desatualizadas
  • Eu não gosto de vigilância desnecessária, mas há pessoas e crianças levando tiros pela cidade inteira, e jurados e juízes parecem não querer fazer nada sem prova em vídeo ou foto do crime
    Nesse caso, eu estaria literalmente disposto a trocar parte da liberdade por segurança. Dá vontade de dizer para discutirmos remover isso quando o crime estiver sob controle, mas sei que isso é irrealista

    • Armas e armamentos existem há muito mais tempo do que a vigilância por vídeo em massa
      Não há motivo para não ser possível processar casos de tiro, facada e assalto só porque não existe um stream de vídeo em 4K 60FPS do incidente. Os investigadores precisam voltar a fazer o trabalho deles
    • Há muitas formas de reduzir bastante o crime sem depender desse paradigma de vigiar todo mundo
      É parecido com dizer “não consigo chegar ao trabalho na hora, então precisamos continuar alargando a rodovia”
    • Parece que esse gato nunca mais vai voltar para dentro da bolsa. Eu ficaria chocado se o fim desse caminho não fosse um Estado de vigilância distópico abusado pelas poucas pessoas no topo para as quais a lei não se aplica
  • A explicação “os pacotes de probe contêm um endereço MAC e uma lista de todas as redes Wi‑Fi às quais o dispositivo já tentou se conectar, o que pode revelar muita informação” em geral não vale para dispositivos modernos
    A maioria dos dispositivos recentes envia probes de broadcast/wildcard para evitar vazar a lista de redes preferidas. Até onde eu sei, probes direcionados só são enviados para APs ocultos

    • A maioria dos dispositivos modernos também randomiza o endereço MAC entre redes e até entre broadcasts ou conexões na mesma rede. Na terminologia da Apple, acho que é “endereço Wi‑Fi”, por motivos bem óbvios
    • Sim. Os principais sistemas operacionais já tinham parado de fazer broadcast da lista de SSIDs preferidos até 2017, com Android e Linux sendo os últimos. A Apple parou em 2014, e o Windows em 2009
  • Ainda tenho sentimentos bem divididos sobre coisas como as câmeras da Flock
    Por um lado, eu entendo que elas podem aumentar enormemente a capacidade da polícia de resolver mais crimes. No caso de roubo de veículos em particular, com uma rede de câmeras ampla deve ser possível rastrear carros roubados muito rapidamente
    Mas o que sempre me preocupa é o potencial de abuso. Confiar no governo atual não significa confiar em governos futuros. E se essa tecnologia for usada para rastrear e vigiar pessoas como jornalistas investigativos? Alguns estados já aprovaram recentemente leis que dificultam mais o jornalismo investigativo. Não está fora do campo das possibilidades que no futuro ampliem a lei e tornem “legal” até mesmo um uso indevido
    Outra preocupação óbvia são problemas como vazamentos de dados ou acesso não autorizado. Já foram encontradas falhas graves de segurança em muitos dispositivos implantados hoje
    O ponto difícil é como equilibrar os grandes benefícios e os custos dessa tecnologia. Como o governo e a maior parte do público não se importam muito com vigilância em massa, parece difícil impedir a adoção dessa tecnologia. Quando falo desse tema com pessoas não técnicas, quase nunca encontro alguém que demonstre interesse, e muitas vezes já desisti até de tocar no assunto. Na verdade, muitos são bem a favor da adoção, e como é preciso algum conhecimento técnico, acho que não entendem o custo. Veem só as vantagens e não captam as desvantagens
    No fim, as pessoas normalmente querem segurança, e essas câmeras realmente podem trazer mais segurança. Será que dá para equilibrar segurança e proteções adequadas de privacidade?

    • Em vez de pensar em como pegar criminosos, por que não focar em construir uma sociedade em que ninguém queira se tornar criminoso?
      Não daria para encontrar formas de lidar com as causas do crime — desespero, ganância, medo, incapacidade de entender e ter empatia pelos outros?
    • Como era mesmo aquela frase famosa sobre liberdade essencial e segurança temporária?
    • Muitos países europeus conseguem esse equilíbrio razoavelmente bem. Dá para ter regras e regulações sensatas, mas os EUA normalmente só regulam depois que o pior dano já aconteceu
      O governo e o ICE já abusaram muito disso. Espero que o sistema eleitoral ainda funcione o suficiente para produzir as mudanças necessárias
    • Se a polícia liga dizendo que encontrou um veículo roubado, mas usa um identificador de chamadas enganoso e nem deixa mensagem de voz, isso é praticamente inútil
    • Você diz que isso pode aumentar enormemente a capacidade da polícia de resolver mais crimes, mas será mesmo?
      Há milhões dessas câmeras pelo país, e quando se pergunta qual é o valor delas, a Flock e a polícia só apresentam um ou dois casos de prevenção ou resolução por vez. Normalmente é algo do tipo “pegamos um ladrão depois do fato” ou “impedimos alguém de fuçar no lixo”
      Procure por Samantha Guthrie e aí a gente volta a conversar
  • A polícia de Seattle disse que, por algum motivo, era “impossível” até conseguir as imagens do roubo da minha bicicleta sob as câmeras de segurança de uma estação de trem leve

  • A explicação “o dispositivo grita informações pessoais para o mundo em algo chamado pacote de probe. Pacotes de probe contêm um endereço MAC e uma lista das redes Wi‑Fi às quais ele já tentou se conectar” valeria nos anos 2010, mas hoje é diferente
    Hoje em dia, randomização de endereço MAC é o padrão, e a lista de redes Wi‑Fi anteriores também não é mais transmitida por broadcast