- O recurso Search Party com IA foi apresentado como uma tecnologia que analisa imagens de câmeras da vizinhança para encontrar cães perdidos, mas levantou preocupações sobre a possibilidade de rastrear pessoas
- Um comercial de 30 segundos exibido durante o Super Bowl foi criticado por glamourizar a vigilância entre vizinhos, alimentando a ansiedade sobre uma sociedade de vigilância em massa
- O especialista em privacidade Chris Gilliard criticou o anúncio como “uma tentativa de tornar fofa uma rede de vigilância”, e o senador Ed Markey apontou que “isso não é uma história sobre cães, é uma história sobre vigilância em massa”
- A Ring afirmou que o Search Party não processa biometria humana e é separado do recurso de reconhecimento facial Familiar Faces, mas o fato de o Search Party vir ativado por padrão ampliou a controvérsia
- O artigo, como um todo, alerta para os riscos de expansão das tecnologias de vigilância com IA e para a questão da confiança nas empresas, destacando o perigo de a Ring ampliar sua infraestrutura de vigilância sob o argumento de segurança pública
Recurso Search Party e conteúdo do anúncio
- O Search Party com IA da Ring funciona analisando automaticamente imagens em nuvem de câmeras externas com assinatura, com base em uma foto do cão enviada pelo usuário ao app Neighbors, para encontrar correspondências
- Quando uma imagem correspondente é encontrada, o proprietário da câmera recebe uma notificação, e o usuário pode compartilhar o vídeo ou avisar o tutor do animal
- O comercial de 30 segundos exibido durante o Super Bowl mostrava câmeras de vizinhos cooperando para encontrar um cachorro perdido
- No entanto, as críticas cresceram porque o anúncio teria retratado de forma positiva uma ‘rede de vigilância entre vizinhos’
Reação pública e preocupações com vigilância
- Nas redes sociais, muitos levantaram a preocupação de que, se a IA consegue identificar cães, também consegue identificar pessoas
- A controvérsia se intensificou com a recente introdução do recurso de reconhecimento facial (Familiar Faces) pela Ring
- O senador Ed Markey criticou dizendo que “isso não é uma história sobre cães, é uma história sobre vigilância em massa” e pediu mais transparência na cooperação entre a Ring e as autoridades de aplicação da lei
- Chris Gilliard afirmou que a Ring é “uma empresa de vigilância que coopera estreitamente com as autoridades” e descreveu o anúncio como “uma tentativa de tornar fofa uma realidade distópica”
Explicação da Ring e distinção entre os recursos
- A porta-voz da Ring, Emma Daniels, explicou que o Search Party não processa biometria humana e é totalmente separado do recurso de reconhecimento facial
- O Familiar Faces funciona no nível da conta individual do usuário e, ao contrário do Search Party, não tem recurso de compartilhamento em rede coletiva
- Daniels enfatizou que “essas ferramentas não são para vigilância em massa e contam com salvaguardas claras e transparência”
- Ainda assim, o Search Party fica ativado por padrão (opt-out), e o usuário continua participando a menos que o desative manualmente
Relação com autoridades e acesso a dados
- Usuários da Ring podem fornecer vídeos de casos sob investigação por meio do recurso Community Requests
- Esse processo é tratado por sistemas de gerenciamento de evidências de terceiros, como Axon e Flock Safety, oferecendo um sistema seguro de gestão de evidências
- A Ring afirma que governos ou autoridades não podem acessar diretamente a rede, e que os vídeos só são compartilhados com consentimento do usuário ou mediante solicitação legal
- Daniels também disse que a Ring não firmou parceria com o ICE nem com agências federais, e que todos os pedidos podem ser verificados publicamente no app Neighbors
- Foi mencionado que a integração com a Flock Safety ainda não está ativada, e que não há atualizações sobre planos futuros
Possível expansão da vigilância e questão da confiança nas empresas
- O artigo destaca que há muitos casos em que tecnologias de vigilância em massa se expandiram para além de seu objetivo original
- O comercial do Super Bowl foi criticado por usar uma narrativa emocional para encobrir os riscos da tecnologia
- A Ring operou no passado um programa de cooperação com a polícia e, embora tenha reduzido parte dessas iniciativas recentemente, voltou a focar na prevenção do crime por meio de IA
- O fundador Jamie Siminoff já mencionou a meta de “zerar o crime” com tecnologia de IA
- Na conclusão, o artigo enfatiza os limites da confiança e do controle da vigilância, mais do que as boas intenções das empresas, alertando que “se a Ring estiver escondendo ambições de vigilância atrás do instinto de proteger animais de estimação, será difícil conquistar essa confiança”
1 comentários
Comentários do Hacker News
No filme de 2008 〈The Dark Knight〉, o Batman hackeia os celulares dos cidadãos para rastrear o Coringa, e isso é apresentado como o principal dilema moral do filme
O motivo de o Batman ainda poder permanecer um “bom personagem” era que ele destruía completamente o sistema depois que a missão terminava
Mas agora, em menos de 20 anos, uma tecnologia de vigilância muito mais poderosa está sendo divulgada em comercial do Super Bowl como se fosse “tecnologia legal”. Chegamos a uma era em que as pessoas são incentivadas a enviar voluntariamente imagens do Ring
O ponto central era a cena em que Batman diz “isso é poder demais” e dá acesso apenas ao Lucius
Alfred ajuda, mas ao mesmo tempo entrega sua carta de demissão e mantém seu limite moral
Parece improvável que exista alguém como o Alfred na Amazon
Muita gente está criando tecnologia sem entender absolutamente nada da mensagem de obras de ficção científica ou de filmes
Também existe a visão de que o filme não está dizendo uma verdade, sendo apenas um recurso narrativo
Seria um cenário satírico em que Batman hackeia câmeras Ring para pegar o Coringa e, depois, coopera com a Amazon para instalar câmeras pela cidade inteira
No final, termina com um comercial da “Ring Camera Pro 3 Batman Edition”, em um desfecho de humor sombrio
Há quem diga que é ainda mais preocupante o fato de o Ring ter firmado parceria com a controversa Flock recentemente
São citados como referência o blog oficial da Flock, as críticas da ACLU, a reportagem do The Guardian e a investigação da EFF
Também houve caso de o CEO demonstrar comportamento agressivo com críticos
O motivo de o comercial do Ring estar sendo criticado é que, em vez de mostrar com franqueza casos reais de uso — como roubos, furtos ou acidentes de carro —, ele foi embalado em uma história artificialmente comovente de “encontrar um cachorro perdido”
Esse jeito de “pagar de bonzinho” acaba passando a impressão de que há algo sendo escondido
Os problemas estruturais do Ring continuam os mesmos e estão ficando cada vez mais graves
É uma função que, quando o usuário envia a foto de um animal perdido, procura automaticamente nas imagens das câmeras
Em vez de resolver isso com câmeras de vigilância, o certo seria mudar o sistema de entregas
Na China, as crianças já estão se acostumando à vigilância, inclusive entrando na escola por portões com reconhecimento facial
Em um vídeo publicitário da Hikvision, aparece a imagem de um “Big Brother amigável”
O modelo da Amazon não é de vigilância total e frontal, mas sim de uma rede de câmeras esparsa, porém ampla, estruturada para acabar capturando qualquer coisa em movimento
A Flock segue a mesma ideia
O responsável pelo WeRateDogs publicou um vídeo criticando publicamente o comercial do Ring
Link para o vídeo
É mencionado o caso do desaparecimento de Nancy Guthrie, em que uma câmera Nest teria sido relevante
Como a assinatura não estava sendo paga, as imagens não foram armazenadas na nuvem, e no fim o Google só forneceu o vídeo uma semana depois
É possível que a empresa tenha temido perder incentivo para assinaturas se entregasse o material imediatamente
Mas esse atraso pode ter colocado a vítima em risco
Também houve quem achasse bom ver a principal conta de avaliação de cachorros da internet tratando desse comercial
Vídeo relacionado no Instagram
Também foi lembrado que a Amazon já tinha feito antes um comercial em que a Alexa mata uma pessoa
A reação foi de não conseguir entender qual era a intenção
Foi mencionado que o filme 〈The Circle〉 (2017) já havia previsto algo assim
A história mostra uma gigante da tecnologia apresentando um sistema de vigilância em massa em nome de um “bom propósito”, algo muito parecido com o comercial atual do Ring
Link do trailer
Também houve reação de que este comercial é excessivamente manipulador e hipócrita, a ponto de causar repulsa
A pergunta, com tom de autodepreciação, era: “como pessoas comuns conseguem fazer uma coisa dessas?”
É uma crítica estrutural de que os poderosos querem vigilância e, como não há punição, isso continua se repetindo
A ideia é que, se recusarem ordens, a vida inteira deles pode desmoronar