- A teoria de three cueing (três pistas) adotada nas escolas públicas dos EUA é uma causa de as crianças terem dificuldade para aprender a ler
- Essa teoria contrasta com métodos de leitura comprovados cientificamente, mas ainda permanece nos treinamentos de professores e em materiais didáticos
- Os estudantes aprendem estratégias ineficazes como memorizar palavras, deduzir pelo contexto e pular palavras, o que pode levar a dificuldades de leitura para o resto da vida
- Pesquisas em ciências cognitivas mostram que o reconhecimento da correspondência letra-som, conhecido como phonics, é central para uma leitura fluente
- Muitas escolas investiram milhões de dólares nessa teoria antiga, e cresce a necessidade de mudança e revisão da educação
Introdução: Crianças que têm dificuldade em ler
- Molly Woodworth foi uma estudante com alto desempenho acadêmico, mas teve dificuldades de leitura desde pequena
- Ela compensava a leitura por meio de três estratégias: memorizar palavras, inferir significado pelo contexto e pular palavras desconhecidas
- Ninguém percebeu o problema de leitura de Woodworth, e o ponto importante é que muitas crianças nos EUA têm essa mesma experiência
- Nas escolas públicas americanas, uma teoria de leitura com falhas científicas claras tornou-se padrão durante décadas
- Com isso, muitos estudantes não aprendem a ler adequadamente e não se tornam leitores proficientes até a formatura
Surgimento e impacto da 'Three Cueing Theory' (Teoria das Três Pistas)
- A teoria das Três Pistas, apresentada por Ken Goodman em 1967, afirma que as crianças leem palavras com base em três dicas: letra, estrutura frasal e significado
- Goodman e sua colega Marie Clay identificaram erros observando crianças e passaram a valorizar mais a compreensão de significado do que o reconhecimento preciso de palavras
- Essa abordagem tornou-se a base de métodos de leitura amplamente adotados internacionalmente, como whole language e Reading Recovery
- Desde os anos 1980, foi popularizada em escolas de todo os EUA por meio de materiais de ensino e formações de professores
Contra-argumentos da ciência cognitiva e resultados de pesquisa
- Pesquisadores em ciências cognitivas, como Keith Stanovich, mostraram que leitores proficientes realmente identificam palavras de forma mais rápida e precisa
- Nos estudos, leitores menos proficientes dependem mais do contexto, enquanto leitores proficientes reconhecem palavras imediatamente com base em letras e sons
- A dificuldade de reconhecimento de palavras fracas foi confirmada repetidamente como causa principal de problemas de leitura
- Ainda assim, a abordagem de três pistas continua sendo amplamente usada em sala de aula
Campo escolar: reprodução de estratégias incorretas
- Em muitos materiais e salas de aula, usam-se recursos que enfatizam olhar a imagem, ouvir o som da letra inicial e inferir pelo contexto, pilares da teoria de três pistas
- Os estudantes ficam mais habituados a memorizar padrões de palavras e a supor por imagem/padrão do que aprender a relação entre grafia e som
- Materiais conhecidos como Guided Reading, Leveled Literacy Intervention e Units of Study for Teaching Reading também dependem da abordagem de três pistas
- Crianças que recebem esse tipo de ensino tendem a formar um hábito de leitura parecida em vez de habilidades reais de leitura
Comparação prática: efeito real dos métodos de ensino de leitura
- O professor Goldberg, do Oakland Unified School District, comparou a abordagem de três pistas com um programa de instrução fônica estruturado (SIPPS)
- Observou que estudantes instruídos com foco em fonics liam palavras com precisão e resolviam problemas de forma mais autônoma
- Os alunos formados pela abordagem de três pistas continuavam dependentes de fotos e padrões de frase e com dificuldades persistentes na leitura de palavras reais
- Goldberg passou a reconhecer a necessidade de métodos baseados em evidências científicas
Problemas do 'Balanced Literacy'
- O Balanced Literacy diz combinar alfabetização fônica e diversas experiências de leitura, mas, na prática, mistura pistas e práticas antigas
- Relatórios oficiais (EUA em 2000, Reino Unido, Austrália, entre outros) destacam a necessidade de instrução fônica; ainda assim, muitos materiais continuam usando três pistas
- O hábito de três pistas atrapalha o processo de orthographic mapping, no qual a criança integra grafia e som de palavras na memória
- Se a criança não desenvolve habilidade fônica, o risco de ficar para trás na leitura a partir do 3º ano aumenta quando os livros têm menos imagens e mais palavras
Tentativas de transformação escolar e dificuldades de implementação
- Alguns distritos, como Oakland, testam materiais e métodos pedagógicos novos, sem incluir as três pistas
- O foco passa a ser instrução fônica explícita, expansão de vocabulário oral e prática de leitura
- A inovação não é fácil devido à falta de compreensão dos professores, ausência de autonomia na escolha de materiais e à estrutura do mercado
- Grandes editoras fornecedoras de materiais (como Heinemann) e autores renomados frequentemente ignoram ou não aceitam críticas científicas
- Professores na ponta costumam confiar nos sistemas e materiais já existentes, aumentando a percepção de que mudanças estruturais são necessárias
Conclusão e recomendações
- A teoria de três pistas se baseia em observação e teoria, mas não é consistente com evidências experimentais da ciência cognitiva
- Pesquisas científicas mostram que o domínio da correspondência precisa entre grafia e som é fundamental para uma leitura fluente
- É necessária uma mudança no sistema educacional como um todo, na revisão de materiais e na direção da formação docente
- Escolas e professores devem verificar se há rastros da teoria de três pistas em seus materiais e proteger os alunos de prejuízos na leitura
- A melhoria efetiva do ensino de leitura é crucial para o aprendizado de longo prazo, a trajetória acadêmica e a qualidade de vida das crianças
Referência: produção e projeto
- Este documentário foi produzido pela APM Reports e é oferecido como parte do podcast Educate
- Faz parte de uma série documental baseada em histórias reais sobre educação, oportunidades e modos de aprender
- Inclui lista detalhada de equipe de produção, reportagem, edição e de organizações financiadoras
- Reforça que pais, professores e profissionais da educação precisam compreender e discutir a alfabetização
Anexo e recursos
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