A Era da Média (2023)
(alexmurrell.co.uk)- Em toda a cultura criativa e comercial, costumes e clichês vêm ganhando força sobre a individualidade, e interiores, arquitetura, carros, aparência, mídia e branding estão convergindo para visuais cada vez mais parecidos
- Acomodações do AirBnB, cafeterias e restaurantes compartilham a estética AirSpace — paredes brancas, madeira natural, lâmpadas Edison e logos sem serifa — e, embora prometam uma “experiência local autêntica”, repetem uma atmosfera familiar e segura
- Apartamentos médios de baixo custo nos EUA, SUVs globais, carros monocromáticos, Instagram Face, filmes e jogos de franquia estão tendo sua variedade formal reduzida por pressões como regulação, custo, testes, plataformas e concentração de mercado
- Anúncios de marca e identidades visuais também reaproveitam fórmulas repetíveis como shelfie, fundos em tons pastel, logos sem serifa achatados e slogans do tipo “Find Your X”, sendo puxados por referências online e pelo efeito dos moodboards
- Quanto mais todas as categorias se reúnem em estilos seguros, mais marcas e criadores que escolhem outro caminho podem se destacar com diferença e originalidade
“People’s Choice” e o gosto médio revelado
- No início dos anos 1990, Vitaly Komar e Alexander Melamid contrataram uma empresa de pesquisa de mercado para descobrir o que os americanos queriam em uma obra de arte
- A Marttila & Kiley Inc. entrevistou 1.001 cidadãos americanos ao longo de 11 dias sobre cor, ângulo, pinceladas, estado das figuras humanas e paisagem de fundo
- Os dois artistas pintaram com base nos resultados e repetiram o mesmo processo em vários países, como Rússia, China, França e Quênia
- A série “People’s Choice” pretendia criar obras únicas em colaboração com pessoas de cada país e cultura, mas, após reunir opiniões de mais de 11 mil pessoas em 11 países, o resultado foi quase sempre a mesma pintura
- Grayson Perry resumiu dizendo que quase todos os países queriam “algumas pessoas, um animal em primeiro plano e uma paisagem predominantemente azul”
- Komar recebeu resultados parecidos ao viajar por vários países e acabou pintando paisagens azuis semelhantes, dizendo que “ao procurar liberdade, encontrou a escravidão”
- O caso revela a tensão entre a forma como as pessoas se veem como indivíduos e o fato de que seus gostos reais são muito mais parecidos do que gostariam de admitir
Interiores: o mesmo cômodo no AirBnB e na cafeteria
- Laurel Schwulst, ao procurar fotos de quartos no AirBnB para reformar seu apartamento em Nova York em 2011, percebeu que as acomodações do mundo inteiro pareciam similares
- Lugares em Brooklyn, Osaka, Rio de Janeiro, Seul e Santiago exibiam uma atmosfera parecida, mesmo promovendo “pessoas reais e autenticidade”
- Repetiam-se paredes brancas, madeira natural, máquinas Nespresso, cadeiras Eames, tijolo aparente, prateleiras abertas e lâmpadas Edison
- Esse estilo recebeu nomes como “Modern Life Space”, “International AirBnB Style”, “Brooklyn Look” e AirSpace
- Kyle Chayka argumenta que madeira reaproveitada, lâmpadas Edison, luminárias industriais restauradas, interiores rústicos, logos sem serifa e cores de destaque clichês passam familiaridade e conforto a pessoas ricas e altamente móveis
- A mesma estética se espalhou além do espaço residencial para cafeterias e restaurantes
- O Shoreditch Grind, em Londres, e o Takk, em Manchester, não são redes nem seguem instruções da mesma empresa, mas compartilham elementos como mesas de madeira, janelões, luminárias pendentes e lâmpadas Edison
- Four Barrel, em San Francisco, Toby’s Estate, no Brooklyn, The Coffee Collective, em Copenhague, e Bear Pond Espresso, em Tóquio, também aparecem como exemplos de cafeterias parecidas entre si
- Restaurantes já estabelecidos como Dickey’s Barbecue, casas em Chinatown de Toronto e o Holler & Dash, da Cracker Barrel, também adotaram menus em quadro-negro e madeira reaproveitada
Arquitetura: não-lugares e five-over-one
- O conceito de não-lugar (non-place), de Marc Augé, se refere a ambientes áridos de alta mobilidade e anonimato, como aeroportos, paradas de descanso e hotéis
- Esses espaços priorizam função e eficiência acima da expressão humana e da conexão social
- Em 1995, Rem Koolhaas perguntou em “The Generic City” se as cidades modernas estavam indo na direção de se tornarem “todas iguais”, como aeroportos
- A pergunta amplia as características estéreis do não-lugar para a cidade inteira e trata do problema de como a convergência se torna possível quando a identidade é abandonada
- Nos EUA, os prédios residenciais médios erguidos de forma rápida e barata se tornaram exemplo clássico de arquitetura padronizada
- Justin Fox explica que a construção barata em estrutura de madeira impulsionou a disseminação desses edifícios médios em forma de caixa, hoje presentes em quase todas as cidades americanas
- Normalmente têm de 3 a 7 andares e são usados não só para aluguel residencial, mas também em dormitórios, condomínios, hotéis e moradias assistidas
- As fachadas são revestidas com fibrocimento, metal, estuque e tijolo, e o estilo é chamado de Fast-Casual Architecture, McUrbanism e five-over-one
- Em 2017, foram concluídas 187 mil novas unidades habitacionais em prédios americanos com 50 ou mais unidades, o maior número desde que o Census Bureau começou a acompanhar isso em 1972
- Pelo cálculo informal de Fox, mais da metade delas estava nesses edifícios médios em forma de caixa
- Coby Lefkowitz aponta como causas da convergência a regulação arquitetônica, o aumento do custo da terra, a consolidação do setor e a economia de custos ao reutilizar os mesmos projetos em diferentes terrenos
- Ele critica que, nesse processo, diferenças regionais e climáticas entre cidades como Portland, Maine, e Portland, Oregon, ou Philadelphia e Kansas City, acabam sendo ignoradas
- Os espaços de escritório também mudaram na mesma direção
- Heather Smith observa que parques corporativos suburbanos e o Vale do Silício compartilham edifícios baixos, recuo em relação à rua, estacionamentos e campi autossuficientes separados por árvores
Carros: túnel de vento, plataformas e monocromia
- Jim Carroll já sentia em 1983 que os carros estavam ficando todos parecidos, e atribuía isso ao fato de todos precisarem passar pelos mesmos testes em túnel de vento
- A interpretação é que as montadoras convergiram de forma independente para as mesmas formas, proporções e dimensões ideais para melhorar a eficiência de combustível
- A semelhança dos SUVs modernos aparece na comparação entre Hyundai Santa Fe, Acura RDX, Volvo XC60 e BMW X3
- Os quatro modelos têm 75 polegadas de largura; a maioria mede 66 polegadas de altura, e só o Volvo fica em 65
- A diferença de comprimento é de no máximo 3 polegadas, e todos compartilham janelas traseiras laterais pequenas, detalhes cromados e formas que evitam ângulos retos
- Entre as causas da semelhança estão não só os testes em túnel de vento, mas também o compartilhamento de plataformas entre grandes grupos automotivos, o desenho voltado ao mercado global e a fabricação eficiente
- Ian Callum, que liderou o design da Jaguar-Land Rover por 20 anos, diz que os carros são projetados para os países e consumidores mais amplos possíveis
- Antes mesmo de começar a desenhar, os designers recebem dimensões definidas pelo departamento de packaging, ajustadas ao milímetro para atender túnel de vento, normas governamentais de segurança e exigências de espaço de carga
- As cores dos carros também convergiram para a monocromia
- Segundo dados compartilhados por Jökull Solberg, cerca de 40% dos carros vendidos em 1996 eram pretos, brancos, prateados ou cinza; 20 anos depois, esse número subiu para 80%
- Entre as possíveis causas citadas estão a cor padrão, o desbotamento de cores vivas, a preferência por tons neutros em tempos instáveis, o mercado de usados e a influência do design contido dos smartphones, mas nada disso é conclusivo
- Os logos das marcas automotivas também caminharam para formas mais planas e simples
- Em setembro de 2020, a Vauxhall trocou um logo parecido com um emblema 3D cromado por uma forma mais plana, fina e simples
- A Audi revelou um rebranding minimalista em 2018, e Volkswagen, BMW, Toyota e Nissan também apresentaram logos achatados
Pessoas: Instagram Face e a sensação de cópia na moda
- Jia Tolentino tratou, em dezembro de 2019, do fenômeno da Instagram Face, em que celebridades e influenciadoras vão ficando cada vez mais parecidas
- Esse rosto é descrito como pele lisa, maçãs do rosto altas e cheias, olhos felinos, cílios longos, nariz pequeno e arrumado e lábios volumosos
- Essa aparência é apresentada como resultado de pelo menos três movimentos simultâneos
- O mercado de procedimentos injetáveis, como Botox e preenchimentos, disseminou a mudança física
- Apps como FaceTune popularizaram o retoque digital
- Técnicas de maquiagem como strobing e contouring mudaram a impressão da estrutura facial
- O Botox foi aprovado pela FDA em 2002 para prevenção de rugas, e depois disso preenchimentos de ácido hialurônico como Juvéderm e Restylane se expandiram do preenchimento de linhas finas para a alteração de mandíbula, nariz e estrutura das bochechas
- Os procedimentos duram de 6 meses a 1 ano, custam menos do que cirurgia e são vendidos com apelos de acessibilidade, como a ideia de aplicar Botox e voltar direto ao escritório
- O preço médio de uma seringa de preenchimento é de $683
- Filtros digitais e o FaceTune permitem criar aparência semelhante sem o custo de procedimentos reais
- Rebecca Jennings observa que a Instagram Face está conectada a plataformas digitais, e mesmo quem já tem naturalmente esse visual usa ferramentas como FaceTune para reforçar características já “algoritmicamente perfeitas”
- Kim Kardashian aparece repetidamente como referência central da Instagram Face
- O maquiador Colby Smith diz que o objetivo de todas as estrelas das redes sociais é parecer com ela
- O cirurgião plástico Jason Diamond, de Beverly Hills, afirma que cerca de 30% de seus pacientes levam fotos de Kim ou de alguém parecida com Kim
- Vivienne Westwood também criticou que, na forma de se vestir, as pessoas estão parecendo clones e foram treinadas como consumidoras a consumir demais
Mídia: fórmulas de pôster e concentração em franquias
- Christophe Courtois reuniu, no começo dos anos 2010, pôsteres de filmes moldados por fórmulas muito parecidas
- Comédias românticas repetiam o casal de costas um para o outro sobre fundo branco, filmes de terror repetiam o close em um olho, e filmes de ação repetiam a figura de costas em roupas pretas
- Steven Soderbergh atribui a semelhança entre pôsteres, trailers e comerciais de TV aos testes
- A explicação é que elementos interessantes acabam removidos por terem pontuação baixa nos testes, fazendo tudo ficar igual
- Adam Mastroianni analisou os 20 filmes de maior bilheteria de cada ano desde 1977, classificando se eram sequência, prequela, franquia, spin-off ou reboot
- Até 2000, cerca de 25% dos maiores sucessos de bilheteria eram desse tipo de “multiplicity”
- Depois de 2010, a participação passou de 50% todos os anos e, nos anos mais recentes, chegou perto de 100%
- Em 2021, entre os 10 maiores filmes, apenas 1 original apareceu: Free Guy; em 2020 foram 2, e em 2019, nenhum
- A receita dos 20 maiores títulos representava cerca de 40% da receita dos 200 maiores até 2015, mas em 2021 passou de 60%
- O mercado editorial também repete os mesmos nomes no topo
- Antigamente era raro um mesmo autor colocar vários livros no Top 10 no mesmo ano, mas desde 1990 isso acontece quase anualmente
- Em 1998, Danielle Steel foi a primeira a colocar 3 livros no Top 10 em um único ano
- Nos anos 1950, pouco mais da metade dos autores do Top 10 já havia aparecido antes; hoje, esse número está perto de 75%
- Entram como exemplos a repetição da fórmula “The Girl with…” em títulos de ficção e o uso de palavrões em títulos de autoajuda
- Os videogames também passaram a depender mais de franquias
- No fim dos anos 1990, a participação de jogos de franquia entre os mais vendidos era inferior a 75%, mas depois de 2005 ficou perto de 100%
- Aparecem como exemplos o remake de The Last of Us, o remake de Call of Duty: Modern Warfare II, Street Fighter 6, Final Fantasy XVI e a reimaginação de System Shock
Marcas: fórmulas publicitárias, blanding e slogans repetidos
- Desde o anúncio “shelfie” da Clinique em 1982, várias marcas como Selfridges, e.l.f. e Billie criaram campanhas com composições parecidas
- O formato básico é fundo branco, prateleira de vidro, frascos de remédio e a foto do interior de um armário farmacêutico com os produtos da marca
- Além da composição de prateleira, repetem-se fotos com o céu refletido no espelho para fazer o produto parecer flutuar, imagens que refratam o produto com gotas d’água e enquadramentos diante de fundos falsos que lembram um estúdio barato da Sears
- Essas composições aparecem tanto nos feeds de Instagram de grandes marcas de bebidas quanto nos de marcas indie de skincare
- Desde os anos 2010, o estilo shelfie e derivados foi amplamente adotado entre marcas DTC com prioridade digital
- Elizabeth Goodspeed explica que a dependência das mesmas plataformas online e de um enorme volume de imagens de referência cria o efeito moodboard
- A homogeneidade visual deixa de funcionar como tendência e passa a agir como meme, sendo remixada e diluída até virar uma massa visual única
- Na identidade de marca, o blanding se espalhou
- Thierry Brunfaut e Tom Greenwood usaram o termo em um texto da Fast Company em 2018
- A fórmula é resumida em nome com cara de palavra inventada, tipografia sem serifa, composição limpa e legível, espaço em branco adequado, tom de voz direto, ausência de um logo marcante, ilustrações vivas e cores fortes
- AirBnB, Spotify e eBay são citadas como marcas que trocaram logos tipográficos coloridos e expressivos por formas mais retas, rígidas e contidas
- Ben Schott vê as marcas bland como simples, neutras e planas, com paletas em tons pastel, ilustrações fofas e linguagem visual parecida com os ícones do Noun Project
- O setor de tecnologia liderou o movimento, mas identidades achatadas e sem vida se espalharam da moda de luxo aos cuidados pessoais de massa
- Os slogans também repetem a mesma estrutura
- Shai Idelson reuniu 27 marcas usando a fórmula “Find Your X”, incluindo “Find Your Flow” da Lucozade, “Find Your Happy” da Rightmove e “Find Your Volcano” da Volvic
- A mesma lógica continua na estrutura “X, Your Way”, com frases como “Indulge, Your Way” da Nespresso, “Sound, Your Way” da Sonos e “Dun, Your Way” da Dunelm
A oportunidade deixada pela era da média
- A homogeneidade aparece não só em interiores, arquitetura, carros, aparência, mídia e marcas, mas também em fotos de Instagram, tweets, TV, ícones de apps, skylines, sites e ilustrações
- Entre as causas possíveis estão a busca pela segurança do familiar em tempos instáveis, a obsessão com quantificação e otimização e a globalização das fontes de inspiração
- Assim como Komar e Melamid criaram a “escolha das pessoas” na arte, empresas contemporâneas estão perto de produzir a escolha das pessoas em quase todas as categorias criativas
- Quando todas as prateleiras de supermercado e todos os setores seguem os mesmos costumes, marcas e empresas ousadas podem escolher outra rota e se tornar diferentes (distinctive) e disruptivas (disruptive)
- Já que a cultura visual vem andando na mesma direção, é preciso abandonar a conformidade, evitar o previsível e reintroduzir a originalidade
1 comentários
Opiniões no Hacker News
Há um esnobismo evidente em algumas críticas de arquitetura. Lamentar a uniformidade de “prédios médios quadrados e sem memória” de estrutura de madeira que fornecem apartamentos ao público é o tipo de crítica que alguém sem preocupação com aluguel escreveria.
Austin teve algum sucesso em reduzir os aluguéis construindo em massa esses prédios médios quadrados e comuns, e isso já é suficientemente aceitável.
Para viajar o bastante a ponto de perceber que vários lugares do mundo são parecidos, é preciso ter algum dinheiro para começo de conversa. Para turistas ricos que não encontram diversidade suficiente nos destinos de viagem, basta tocar o menor violino do mundo.
Além disso, as vilas mediterrâneas do sul da França, da Croácia e da Grécia também são bastante parecidas, repetindo ruas estreitas, telhados de terracota e muros de pedra caiados. As diferenças regionais são do tipo que só aparecem bem aos olhos de um arquiteto treinado.
Em qualquer época, as pessoas dão mais valor à moradia que possam construir barato com os recursos disponíveis do que a exibir identidade. Só que, na era da logística global e da produção industrial, “recursos disponíveis” já não significa materiais locais.
Se a melhoria do padrão de vida de muitos gera certa uniformidade, dá para simplesmente aceitar.
A monocultura global fora da arquitetura de que o texto reclama, vista com otimismo, também pode ser um sinal de que o mundo está se aproximando, na medida em que um café hip em NYC passa a ser um café hip também em Shanghai e Liverpool. Não gosto de tudo ficando igual, mas isso também dá esperança de que o mundo está começando a se integrar.
Prédios quadrados também ficam muito mais perdoáveis se houver um pouco de personalidade misturada pela cidade. Amsterdam também tem prédios quadrados por toda parte, mas belos canais e pontes, além de alguns exemplos únicos de arquitetura moderna, criam uma personalidade real.
Esse tipo de arquitetura provavelmente não serviria para lugares como o Canada, mas o mundo todo está convergindo para estilos que talvez não sejam os mais adequados ao local. Por exemplo, em países quentes, fico me perguntando por que se constroem arranha-céus de vidro em vez de edifícios cujo próprio projeto e materiais ajudem no controle de temperatura.
Também é difícil aceitar o argumento de que considerar a identidade de um lugar seja esnobe. Construir moradias baratas é obviamente bom, mas isso não significa que não devamos dedicar tempo a planejar as cidades em que vamos viver. Se o único objetivo for construir muito e barato, vários países ergueram blocos sem rosto e depois enfrentaram problemas maiores do que o aluguel. A ideia de que, porque funcionou em Austin, o mesmo deveria ser construído em outros lugares parece mais problemática.
Mesmo que eu nunca vá lá, não quero que todos os países pareçam iguais. Pessoas pobres também, em geral, conseguem comprar smartphones baratos, então podem aproveitar vídeos do exterior.
O texto diz que cafés e restaurantes ficaram parecidos, mas a mudança mais importante é que as culinárias regionais estão desaparecendo e todos os sabores estão ficando parecidos
Vejo essa tendência desde criança em várias cidades da Spain que eu visitava para ver a família. Em Bilbao, os pintxos/tapas tradicionais estão sendo cada vez mais apagados e substituídos por combinações vistosas de maionese em estilo “internacional”, do tipo que se espalha bem nas redes sociais
O tema recente de uma newsletter semanal sobre cultura da Spain que recebo também foi o desaparecimento de restaurantes tradicionais Mallorcan e sua transformação em restaurantes mais genéricos, “Spanish”, feitos sob medida para turistas
Vi algo parecido em quase todas as cidades que visitei nos últimos 10 anos, e também em Stockholm, onde moro hoje, então parece um fenômeno geral difícil ou impossível de reverter
Hoje moro nos U.S. e vou com frequência à Europe, mas sinto que a comida está se homogeneizando em uma direção ruim
Uns 10 anos atrás, quando minha renda começou a aumentar, comecei a ir a restaurantes com estrela Michelin pela “novidade”, mas, depois de ir a vários, as semelhanças entre eles se destacam mais do que as diferenças. Ficou muito mais difícil encontrar, em lugares como Lyon, restaurantes realmente antigos, de qualidade, que não mudaram em décadas. Uma dica: esses restaurantes geralmente têm nota no Google entre 3,9 e 4,1. Americanos tendem a dar notas mais baixas por não gostarem de algum aspecto da comida ou da cultura, o que acaba reforçando o ponto do texto
Minha segunda impressão é que talvez o mercado esteja nos dizendo que não precisamos de tanta cultura culinária assim. Provavelmente há mais de 100 culturas culinárias únicas no mundo; quantas pessoas já provaram todas elas? E também não deve haver tanta gente que se cansou de uma parte significativa delas e está em busca de algo mais novo
Mallorca é uma das regiões mais turísticas da Spain. Se alguém já se cansou da comida Spanish genérica, provavelmente está indo para outras regiões menos turísticas da Spain, e nesses lugares é mais provável encontrar, por acaso, culturas culinárias mais de nicho preservadas
Você disse que isso acontece em todas as cidades que visitou, mas também importa quantas dessas cidades estavam fora das rotas turísticas comuns
Os tacos do Mexico combinam tortilla de milho com recheios à base de carne bovina e suína, e o ceviche do Peru também é um exemplo de comida criolla. Talvez estejamos em uma fase em que o pêndulo balança para a uniformidade, mas no fim novas cozinhas vão surgir
Vários restaurantes, especialmente grandes redes como Applebee's, IHop e Waffle House, dependem desse modelo porque assim precisam contratar menos gente para a cozinha. Na North America, a Sysco é uma gigante que domina esse mercado, então isso é muito comum. Talvez o mesmo esteja acontecendo na Spain
Não sei bem se este texto está tentando fazer esse fenômeno parecer negativo
Toda década cria um estilo próprio, e esse estilo se espalha até deixar de ser distintivo
As cafeterias da terceira onda todas parecem iguais porque surgiram no auge da estética farm-to-table. Curiosamente, essa estética nasceu como resposta à uniformidade dos Chilis e Starbucks de strip malls dos anos 1990. Lembro de designers ficando empolgados ao descobrir tábuas de madeira de celeiros caindo aos pedaços para usar em interiores
Agora, quando as pessoas se cansarem do estilo farm-to-table, vão passar para outra coisa. Daqui a 50 anos, ao olhar para trás, essa “uniformidade” de que o autor fala provavelmente será um dos elementos que definirão os anos 2010 e 2020, junto com algum nome dado por historiadores
https://lab.sciencemuseum.org.uk/colour-shape-using-computer...
Talvez a área de tecnologia também possa aprender com isso
Como na citação do texto, a ideia central é que “procuramos liberdade e descobrimos a escravidão”
Todo pai ou mãe, todo patrono aristocrático e condescendente, toda “elite”, tem sua própria ideia sobre qual é a melhor “liberdade” para os outros
Mas as pessoas respondem: “Boaty McBoatface!”
Em cibersegurança, queremos que as pessoas estejam seguras, mas elas dizem: “queremos TikTok, Microsoft”. Rousseau teria querido que fôssemos “forçados a ser livres”?
Interiores dos anos 70, cheios de sofás de couro, painéis de madeira e aquela aparência dessaturada de fotos antigas em filme, parecem datados. É difícil imaginar alguém olhando para os interiores HD brancos e limpos de hoje e dizendo “uau, isso é muito antiquado”, mas é bem possível que, daqui a algumas décadas, as pessoas sintam exatamente isso
Nas partes de interiores e arquitetura, usabilidade/acessibilidade não é mencionada, e regulamentação e custos quase não são mencionados
Criar interiores e construções novos que sejam amigáveis ao usuário e acessíveis, ao mesmo tempo cumprindo normas escritas com sangue, é caro e difícil. Então pessoas com dinheiro limitado não têm escolha a não ser copiar e colar projetos existentes
Portas, corredores, cantos, rampas, banheiros etc. precisam ser seguros e adequados para crianças pequenas, idosos, pessoas com deficiência visual e usuários de cadeira de rodas. Os objetos também precisam ser dispostos de modo que moradores, usuários, visitantes e clientes consigam navegar pelo espaço de forma intuitiva, sem precisar perguntar toda vez. A reutilização é algo previsível e natural
Relacionado a isso, parece que hoje muita gente vê o que é “alternativo” não como uma ideia realmente genial, mas como algo estranho só para parecer estranho. Não quer dizer que isso esteja sempre certo, mas certamente há muitas alternativas bem ruins
O mesmo vale para design industrial. Se você usa um projeto comum, usa peças de prateleira e pode reutilizar processos de fabricação já implantados. Um projeto completamente original exige reconfiguração de equipamentos, novos testes como os de segurança do produto
O que estamos vendo talvez seja uma classe camponesa pós-industrial, limpa e tecnologicamente avançada
Claro, essa observação pode ser besteira. As casas dos super-ricos também são todas parecidas? Como será a casa de Jeff Bezos? Ao ver fotos do interior de superiates, há claramente pontos em comum. Só que ali as restrições de engenharia também são grandes. É algo como “o mar projeta o navio”
Coisas alternativas também muitas vezes reciclam clichês antigos. Genialidade original existe, mas é bem rara
Se uma certa forma de fazer uma cirurgia se mostra eficiente em custo e com bons resultados, outros cirurgiões aprendem aquele método. Não há mais necessidade de um jeito novo ou diferente. Quando a informação se espalha, outros médicos usam o mesmo método, e o tratamento se padroniza no mundo todo
A mesma coisa está acontecendo com as cidades. Além disso, os principais escritórios de arquitetura muitas vezes assumem projetos no mundo inteiro
Um exemplo interessante é Hyundai/Kia/Genesis. Eles contrataram muitos talentos alemães, e agora o design dos carros deles é muito popular e se parece com carros alemães. O Elantra N foi projetado sob Bierman, que trabalhou na divisão BMW M, e agora se tornou um carro de ótimo custo-benefício que consegue competir na pista com carros mais caros
Isso é um problema especialmente grande em restaurantes, e alguns são barulhentos a ponto de causar dano auditivo
Se olharmos só para os livros que têm “fuck” no título, é simplesmente caça-níquel. The Subtle Art foi um sucesso, e lembro que também me diverti lendo esse livro. Depois disso, surgiram aos montes imitações sem originalidade
Eu também caí nessa e peguei um desses livros achando que fosse uma continuação, mas era uma bobagem incrivelmente chata e larguei quase imediatamente
Acho que a maioria das outras modas também é movida por dinheiro. Querem construir casas no formato que comprovadamente alcança o maior preço de venda; querem fazer carros parecerem com os modelos mais vendidos dos últimos 10 anos; cafés querem parecer cafés de sucesso para atrair mais clientes; contas de influenciadores querem parecer outras contas de influenciadores para maximizar patrocínios e receita de anúncios
Por isso continuam saindo reboots, e quando não é reboot, sai sequência, prequel ou releitura. Toda arte virou investimento e precisa dar retorno, então ninguém quer arriscar em ideias não comprovadas
As paredes das casas são brancas porque a maioria das pessoas não muda o padrão. Elas não ligam tanto assim para a cor das paredes e sabem que, quando venderem algum dia, terão de pintar de branco de novo
Já ouvi dizer que os anos 90 foram a era da referência, e parece que essa influência durou demais. Coisas como o boom de móveis mid-century usados, o visual “industrial” e cantos arredondados por toda parte. Até smartphones parecem mais uma referência a filmes de ficção científica dos anos 60, e acho que o caso Apple contra Samsung também girava em torno disso
Com serviços sob demanda e até a pirataria fácil de bens digitais, no começo parecia que a qualidade individual tinha aumentado, mas no fim tudo isso parece ter contribuído para fazer todos convergirem para a “média”
Ainda assim, a originalidade aparece aqui e ali. Mandy (2018) foi excelente, assim como Scavengers Reign (2023) e Breaking Bad. A Landscape FM faz equipamentos de áudio realmente interessantes. Acho que hardware e software open source tornam muita coisa desse tipo possível. Mas, dependendo do modelo de negócios, tanto o pequeno quanto o grande se tornam possíveis, e o pequeno pode acabar correndo mais risco de sair prejudicado
Todo mundo provavelmente tem suas próprias obras preciosas, mas, dentro dessa paisagem gigantesca, elas parecem raras. Seria bom conseguir apoiar com mais frequência artistas locais e indivíduos que assumem esse tipo de risco, sem transformá-los em ideias de startup de growth hacking
Já há coisas demais na vida com que se preocupar. Qualquer coisa feita sob medida exige manutenção ou gestão adicional
Se você é rico o suficiente para não precisar trabalhar, pode tratar customização como hobby e também tem dinheiro para contratar alguém que cuide desses objetos customizados
Por exemplo, ter um barco parece legal, mas ele suga dinheiro em uma velocidade absurda
A maioria das pessoas não é rica o suficiente nem tem tempo para decorar de forma extravagante, então fica no menor denominador comum
Basta tornar a discussão construtiva, sem necessidade de autocensura. [0]
[0] https://news.ycombinator.com/newsguidelines.html
Acrescentando: shit, fuck, shit
Discordo respeitosamente. Se você olha apenas para as mesmas coisas, tudo acaba parecendo igual
Modas e tendências sempre existiram. Hoje, a comunicação é abundante e fácil, então elas se espalham mais rápido e globalmente, e há muita gente que segue qualquer moda
Mas nem tudo é “médio”. O centro dessa curva em sino pode estar muito alto hoje, mas ainda há muita coisa fora de ±σ; é para lá que se deve olhar
Carros alemães pareciam sóbrios e firmes, e não tinham porta-copos. Carros franceses pareciam meio estranhos e avant-garde. Agora todo mundo dirige os mesmos blocos arredondados com vários porta-copos decididos depois de pesquisas com clientes americanos passando pelo drive-thru do McDonalds
O conceito de “McDonaldization” resume isso da melhor forma. O termo foi criado em 1993: https://en.wikipedia.org/wiki/McDonaldization
Queremos diversidade também dentro do mainstream. Porque alguns projetos só podem ser apreciados quando são compartilháveis com outras pessoas e contam com a participação dos mais talentosos
O fato de que hoje ninguém faz algo como Doctor Zhivago ou Back to the Future não é um problema que eu consiga resolver, por mais que eu procure
Quando se olha apenas para ganhar dinheiro em populações gigantescas e densas, com milhões de pessoas, não surpreende que a individualidade desapareça em amostras grandes
Toda metrópole tem áreas que parecem semelhantes, mas se você estiver disposto a pegar um trem por 45 minutos em qualquer direção, sem Google Maps, há grande chance de chegar a espaços extremamente locais
Sim, agora tudo parece parecido. Mas até certo ponto talvez sempre tenha sido assim
O mundo ficou muito menor, e por isso as ideias se espalham rapidamente. Isso não significa que as coisas permaneçam sempre iguais. As modas mudam, e normalmente só o melhor de cada moda sobrevive
Onde moro há vários prédios antigos com estrutura de madeira aparente. Em certa época, a maior parte da cidade devia ter essa aparência, mas agora só restam os melhores exemplos. O mesmo deve valer para áreas além da arquitetura. O passado também devia estar cheio de imitação genérica, como hoje, só que mais localizada
Pelo menos nas décadas de 1960 e 1970 ainda havia espaço para a individualidade aparecer. Lojas de departamento queriam roupas diferentes das de outras lojas para atrair clientes, e DJs de rádio queriam músicas diferentes para fazer as pessoas ouvirem seu canal
Mas, quando tudo vira monopólio, como as pessoas não têm outro lugar para onde mudar, deixa de haver necessidade de gastar dinheiro para ser único
Por outro lado, a indústria cinematográfica é um exemplo claro em que antes havia de fato mais diversidade. Como o texto menciona, antes de 2000, 3 em cada 4 grandes filmes eram originais; agora isso está chegando perto de zero
A parte de que “talvez seja por causa da nossa obsessão por quantificação e otimização” parece ir na direção certa
Já não projetamos para uma persona imaginária que quer algo específico. Agora conseguimos coletar e analisar dados e projetar para todos, e o que nós, como espécie humana, queremos é bastante previsível. As diferenças individuais são anuladas pela média nessa escala grande
As imagens sem graça do começo não foram pedidas por ninguém, ou pelo menos por quase ninguém. Não eram “People's Choice” no sentido de que a maioria queria exatamente aquelas imagens. Talvez ninguém tenha pedido a combinação azul×animal
Por exemplo, se as suas respostas fossem azul×humano, azul×trem, verde×animal e vermelho×animal, o resultado poderia ser uma imagem azul×animal. A mesma coisa acontece em outros lugares. Se você tenta desagradar o menor número possível de pessoas em cada atributo, é difícil acabar com algo diferente do que temos hoje
Mas acho que não é uma questão de não desagradar as pessoas, e sim de reduzir as diferenças ao mínimo denominador comum. Se você perguntar a pessoas do mundo todo qual deve ser a cor do céu, não dá para se surpreender quando todas respondem “azul”
“Para compreender o ser humano individual, precisamos deixar de lado todo conhecimento científico sobre o ser humano médio, descartar todas as teorias e adotar uma atitude completamente nova e sem preconceitos”
-- Carl Jung, The Undiscovered Self
Dentro da média, tudo é reduzido infinitamente. Mesmo ao fazer uma cadeira, a cadeira perfeita para alguém pode ser tortura para outra pessoa. Por isso se faz um compromisso para todos
O mesmo vale para interfaces de usuário e educação
Só que agora acho que podemos escapar disso. Podemos criar interfaces únicas para cada indivíduo ou ensinar a cada criança aquilo em que ela tem dificuldade. Não há necessidade de ensinar equações quadráticas a 1 milhão de crianças ao mesmo tempo e do mesmo jeito, estejam elas adiantadas ou atrasadas. Uma criança entende na primeira aula, outra entende na última, e outra nunca entende
Dá para ver um efeito parecido também na linguagem. Nas últimas décadas, no UK, vimos jovens de várias regiões adotando um certo sotaque/dialeto de South London
Ironicamente, isso é adotar a cultura de South London e, ao mesmo tempo, abandonar o dialeto da própria região, que tradicionalmente era uma fonte muito forte de identidade no UK
Na cidade da England onde cresci, bastavam algumas frases para saber facilmente se alguém vinha da cidade vizinha a menos de 10 milhas, ou de uma cidade a uma distância parecida na direção oposta. Quando a geração atual desaparecer, acho que essas distinções se tornarão impossíveis
Homogeneidade é um resultado natural de uma mistura mais eficiente