1 pontos por GN⁺ 2024-05-07 | 1 comentários | Compartilhar no WhatsApp
  • Sob as águas do rio Tâmisa há muitas histórias surpreendentes, de ferramentas pré-históricas a cerâmica romana e joias medievais. Entre elas, a história da tipografia Doves, que foi perdida e depois redescoberta, é uma das mais estranhas.
  • Há cerca de 100 anos, o tipógrafo T.J. Cobden-Sanderson, acreditando que seu parceiro de negócios Emery Walker pretendia enganá-lo, jogou secretamente todos os tipos no rio.
  • A fonte Doves é uma tipografia de estilo Arts and Crafts criada pelos dois quando fundaram a Doves Press em Hammersmith, Londres, em 1900. Eles colaboraram com Percy Tiffin e Edward Prince para reproduzir fielmente a clareza das fontes venezianas do século XV.
  • Com capitais largas, pontuação em formato de diamante e um ponto distinto na letra “i”, a fonte Doves tornou-se um símbolo da editora. Como foi feita apenas em 16 pt, ao jogar todos os tipos no rio Tâmisa Cobden-Sanderson acabou com qualquer chance de nova impressão.

Ressurreição histórica da fonte Doves

  • O designer gráfico Robert Green se encantou com a fonte Doves no meio dos anos 2000 e tentou redesenhá-la com precisão para digitalizá-la. Em 2013, lançou a primeira versão para download, mas não ficou satisfeito.
  • Em outubro de 2014, Green descobriu, com base no diário de Cobden-Sanderson, o local exato onde os tipos foram descartados e começou a procurá-los pessoalmente no rio Tâmisa.
  • Com a ajuda de mergulhadores de apneia, foram encontrados 151 tipos, o que permitiu evoluir ainda mais a versão digital.

Descoberta dos Mudlarks

  • Os mudlarks (pessoas autorizadas a procurar tesouros nas margens do rio) também descobriram mais tipos. Jason Sandy, arquiteto e escritor, encontrou 12 e os doou ao museu da casa de Emery Walker.
  • Sandy, fascinado pela história da fonte Doves, expôs no museu centenas de tipos encontrados. Também foi exibida uma cópia da Bíblia em inglês em Doves.
  • Os mudlarks tendem a guardar em segredo o local e a forma como fazem as descobertas. Eles podem passar a noite em busca de tesouros em locais enigmáticos do rio usando lanternas de cabeça.
  • O mais emocionante para Sandy é encontrar artefatos raros ou cotidianos e, a partir disso, realizar novas pesquisas. O rio Tâmisa lança ao acaso objetos usados por pessoas durante milênios, criando uma conexão concreta com o passado.

Opinião da GN⁺

  • Este caso é um episódio muito interessante na história do design tipográfico e da impressão.
  • Ao mesmo tempo, também expõe uma controvérsia em torno da propriedade e do controle de uma obra artística. Coloca-se a questão se um dos criadores pode ter o direito de destruir livremente um trabalho e se esse tipo de destruição não acaba por fazer desaparecer o patrimônio cultural.
  • Com o avanço da tecnologia digital, o valor e a raridade dos meios analógicos voltam a ser destacados. O processo de restauração dos poucos tipos restantes mostra bem como as tecnologias digital e analógica se fundem.
  • A atividade dos mudlarks parece um hobby fascinante e uma forma de investigação histórica. Chama atenção que artefatos encontrados ao acaso se tornam pistas para reconstruir o cotidiano dos londrinos. A cultura própria de ética e sigilo desse grupo também aparece como uma prática singular.

1 comentários

 
GN⁺ 2024-05-07
Opinião do Hacker News

Em resumo, é o seguinte:

  • A fonte Doves tem excelente legibilidade apesar do design complexo. A Mebinac é uma fonte não oficial que reinterpretou a Doves para uma tipografia moderna.
  • Comentários relacionados do Hacker News:
    • A descoberta da fonte Doves no Rio Tâmisa também foi discutida no HN em 2015.
    • Artigos sobre o redescobrimento e o renascimento da fonte Doves foram apresentados no HN várias vezes desde 2013.
  • É visto como um bom exemplo do espírito de aventura, da mestria artesanal britânica e da flexibilidade burocrática.
  • Há críticas de que a versão modernizada da fonte Doves diminui o sentimento de época. A H.P. Lovecraft Society fornece tipografias do século XIX extraídas de documentos antigos.
  • Torbjörn Olsson também restaurou a Doves em 1994. Ela parece ter uma pegada mais leve do que a versão do Robert Green.
  • Encontrar tipos tipográficos no Rio Tâmisa não é algo incomum. Os tipógrafos de jornais podem tê-los descartado por preguiça, por estarem quebrados ou desgastados, ou até como parte de algum ritual.
  • Levanta-se a questão de por que não foi feita uma versão digital da Doves a partir de uma Bíblia em que ela ainda existia.