- Sob as águas do rio Tâmisa há muitas histórias surpreendentes, de ferramentas pré-históricas a cerâmica romana e joias medievais. Entre elas, a história da tipografia Doves, que foi perdida e depois redescoberta, é uma das mais estranhas.
- Há cerca de 100 anos, o tipógrafo T.J. Cobden-Sanderson, acreditando que seu parceiro de negócios Emery Walker pretendia enganá-lo, jogou secretamente todos os tipos no rio.
- A fonte Doves é uma tipografia de estilo Arts and Crafts criada pelos dois quando fundaram a Doves Press em Hammersmith, Londres, em 1900. Eles colaboraram com Percy Tiffin e Edward Prince para reproduzir fielmente a clareza das fontes venezianas do século XV.
- Com capitais largas, pontuação em formato de diamante e um ponto distinto na letra “i”, a fonte Doves tornou-se um símbolo da editora. Como foi feita apenas em 16 pt, ao jogar todos os tipos no rio Tâmisa Cobden-Sanderson acabou com qualquer chance de nova impressão.
Ressurreição histórica da fonte Doves
- O designer gráfico Robert Green se encantou com a fonte Doves no meio dos anos 2000 e tentou redesenhá-la com precisão para digitalizá-la. Em 2013, lançou a primeira versão para download, mas não ficou satisfeito.
- Em outubro de 2014, Green descobriu, com base no diário de Cobden-Sanderson, o local exato onde os tipos foram descartados e começou a procurá-los pessoalmente no rio Tâmisa.
- Com a ajuda de mergulhadores de apneia, foram encontrados 151 tipos, o que permitiu evoluir ainda mais a versão digital.
Descoberta dos Mudlarks
- Os mudlarks (pessoas autorizadas a procurar tesouros nas margens do rio) também descobriram mais tipos. Jason Sandy, arquiteto e escritor, encontrou 12 e os doou ao museu da casa de Emery Walker.
- Sandy, fascinado pela história da fonte Doves, expôs no museu centenas de tipos encontrados. Também foi exibida uma cópia da Bíblia em inglês em Doves.
- Os mudlarks tendem a guardar em segredo o local e a forma como fazem as descobertas. Eles podem passar a noite em busca de tesouros em locais enigmáticos do rio usando lanternas de cabeça.
- O mais emocionante para Sandy é encontrar artefatos raros ou cotidianos e, a partir disso, realizar novas pesquisas. O rio Tâmisa lança ao acaso objetos usados por pessoas durante milênios, criando uma conexão concreta com o passado.
Opinião da GN⁺
- Este caso é um episódio muito interessante na história do design tipográfico e da impressão.
- Ao mesmo tempo, também expõe uma controvérsia em torno da propriedade e do controle de uma obra artística. Coloca-se a questão se um dos criadores pode ter o direito de destruir livremente um trabalho e se esse tipo de destruição não acaba por fazer desaparecer o patrimônio cultural.
- Com o avanço da tecnologia digital, o valor e a raridade dos meios analógicos voltam a ser destacados. O processo de restauração dos poucos tipos restantes mostra bem como as tecnologias digital e analógica se fundem.
- A atividade dos mudlarks parece um hobby fascinante e uma forma de investigação histórica. Chama atenção que artefatos encontrados ao acaso se tornam pistas para reconstruir o cotidiano dos londrinos. A cultura própria de ética e sigilo desse grupo também aparece como uma prática singular.
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Opinião do Hacker News
Em resumo, é o seguinte: