- Em Taiwan e em outros lugares, está se espalhando a prática de empresas forçarem a instalação de apps para coletar dados pessoais
- Elas induzem com descontos em loja, acúmulo de pontos etc., mas os dados fornecidos na instalação do app acabam alimentando a estrutura de capitalismo de vigilância das empresas
- Com os dados coletados, as empresas podem aplicar discriminação de preços individual (surveillance pricing), cobrando valores diferentes de cada consumidor
- Os termos de uso dos apps incluem cláusulas de arbitragem obrigatória (binding arbitration), criando o risco de perder o direito a um julgamento justo em disputas legais
- Essa estrutura pode levar à concentração excessiva do poder corporativo e ao enfraquecimento dos direitos do consumidor
Coleta de dados pessoais por meio da instalação de apps e capitalismo de vigilância
- As empresas induzem o consumidor a instalar apps e usam descontos ou cupons como isca para obter dados pessoais
- Em Taiwan, há casos em que funcionários da loja pegam diretamente o celular do cliente para tentar instalar o app
- Também é citado um caso em que um funcionário de operadora instalou sem autorização um app de e-commerce usando o nome e o número de telefone do cliente
- Essas práticas fazem parte do capitalismo de vigilância (surveillance capitalism), no qual as empresas coletam o máximo de dados possível para analisar o comportamento do consumidor
- A precificação por vigilância (surveillance pricing) baseada em dados ajusta preços individualmente usando informações como dia do pagamento e padrão de consumo do cliente
- Por exemplo, logo após o pagamento do salário, o mesmo produto pode ser vendido por um preço mais alto
- Esse sistema gera o problema de transferir para as empresas o poder de decidir o valor da moeda
- Se o preço do mesmo produto muda de pessoa para pessoa, quem passa a controlar o valor real do dinheiro não é o mercado, mas a empresa
Os riscos das cláusulas de arbitragem obrigatória
- Arbitragem obrigatória (binding arbitration) é uma cláusula contratual que impõe a resolução de disputas por arbitragem privada, e não pelo Judiciário
- O árbitro pode não ser um juiz, mas uma pessoa contratada diretamente pela empresa
- Em transações offline comuns, esse tipo de contrato seria inviável, mas ele é firmado automaticamente por meio do aceite dos termos de uso ao instalar o app
- No caso da Disney, uma cláusula de arbitragem aceita por um usuário ao assinar um teste grátis do Disney+ quase foi aplicada depois em um processo sobre uma morte por intoxicação alimentar na Disney World
- A situação era de ter que resolver o caso em um procedimento privado com um árbitro contratado pela Disney, em vez de ir ao tribunal
- A Disney retirou essa exigência de arbitragem após a repercussão na imprensa, mas o texto aponta que isso foi um caso excepcional
- Nos Estados Unidos, a Suprema Corte reconhece a arbitragem obrigatória como legal, o que dificulta esperar proteção por parte do governo
Casos esperados nos próximos 5 anos
- Um usuário do Uber Eats que sofra um acidente com carro autônomo pode acabar sendo forçado a seguir arbitragem, em vez de processar na Justiça, por causa dos termos de uso do app
- Uma vítima de incêndio causado pela explosão de um veículo Tesla pode ser pressionada a aceitar arbitragem por ter uma conta no Twitter (subsidiária da TeXla)
- Um funcionário da Amazon ferido durante o trabalho pode ter que passar por arbitragem por causa dos termos de assinatura do Washington Post
O que a pessoa pode fazer
- Mais do que governo ou tribunais, o importante é a atenção e a escolha individual
- É preciso evitar instalar apps e minimizar aceites desnecessários de termos e o fornecimento de dados
- O texto conclui com uma orientação direta de ação: "não baixe aplicativos"
Referência adicional
- É apresentado material em que Cory Doctorow trata com mais detalhes do tema relacionado (capitalismo de vigilância e cláusulas de arbitragem)
2 comentários
Se o serviço tiver versão web, é melhor usá-la sempre que possível. A quantidade de dados pessoais que um app pode coletar é inimaginável. Hoje em dia, muitos apps nem deixam você entrar se não conceder as permissões.
Comentários no Hacker News
Mas o resultado inesperado foi que a experiência ficou tão ruim que meu uso caiu bastante
Eu acreditava no ideal das PWAs, mas na prática é frustrante ver que as empresas não têm vontade de criar uma experiência web melhor do que a dos próprios apps
No fim, isso acaba reforçando a percepção de que “PWA nunca pode ser tão bom quanto um app nativo”
Então configurei o Android Firefox para sempre abrir em modo desktop. Ajustando a largura da tela em
about:config, ficou muito melhorJá os apps, no iOS, agora não têm mais um identificador global, então ficou mais difícil rastrear a atividade em outros apps
Só que a maioria das empresas parece deixar o site propositalmente lento e cheio de bugs para empurrar o usuário de volta para o app
Por exemplo, Mastodon e Photoprism funcionam muito bem mesmo quando instalados como PWA
Por exemplo, Uber quase não funciona no navegador mobile
É impressionante que tantos engenheiros saibam disso e ainda assim mantenham essa situação
Fico me perguntando se os desenvolvedores conseguem me rastrear mesmo sem eu conceder permissões
Mesmo sem permissão de localização, parece possível descobrir minha localização aproximada pelo IP
Seria bom se o uso de rede fosse separado como uma permissão própria
Link da explicação oficial
Só que os fabricantes ou o Google não dão esse controle ao usuário
Em ROMs customizadas como GrapheneOS, é possível controlar essa permissão diretamente na instalação
A localização era estimada por Wi‑Fi BSSID e, em shoppings e aeroportos, ainda faziam triangulação com roteadores parceiros
Hoje o endereço MAC é aleatorizado, mas essa mudança demorou bastante para chegar
Muitos apps coletam todos os dados possíveis por meio de SDKs de anúncios
É uma pena que exista esse clima de zombaria com quem se preocupa com isso, como se fosse “paranoia”
https://netguard.me/
Por exemplo, tentei pagar com Apple Pay numa loja Amazon Fresh e foi recusado
O motivo é simples — o Apple Pay usa tokens de uso único, então não dá para rastrear o usuário
Já com cartão físico, a Amazon consegue ligar o número do cartão à conta Amazon e identificar o comprador
Ainda bem que não tem Amazon Fresh por lá
Uma vez, quando esse número mudou num pagamento do AppleCare, a cobrança automática foi interrompida
Não sei se isso facilita mais o rastreamento, mas de qualquer forma existe um número separado
O motivo são as taxas. A Apple fica com uma quantia bem pequena por transação
É pelo mesmo motivo que o Walmart recusa
Fiquei surpreso com o quanto os anúncios praticamente desapareceram
Mas, se for incômodo gerenciar whitelist por app, eu não recomendaria
Pedir comida, chamar carro, reservar passagem aérea — tudo seria automatizado
As empresas não fariam isso por vontade própria, mas o mercado pode acabar forçando
Vi uma promoção de 20% no World Market e fui até lá, mas quando disseram que o desconto só valia se eu digitasse meu número, simplesmente fui embora
Responder assim dá até uma sensação de alívio
Link relacionado
É um comportamento bem arriscado. Parece um hábito criado pela ansiedade
E isso ainda tem o efeito de reduzir meus gastos