- O WhatsApp anunciou a introdução de anúncios no app pela primeira vez
- Os anúncios serão exibidos apenas na aba Updates, e cerca de 1,5 bilhão de pessoas usam essa área
- Para segmentação de anúncios, serão coletados apenas alguns dados, como localização e idioma padrão do dispositivo, e o conteúdo das mensagens e as informações de contato não serão tocados
- O WhatsApp enfatizou que mensagens privadas, chamadas e status continuam protegidos por criptografia de ponta a ponta
- É a primeira mudança que se afasta da filosofia sem anúncios defendida pelos fundadores, marcando um ponto de inflexão importante na experiência do usuário
Mudança: anúncios dentro do app no WhatsApp
A filosofia original do WhatsApp
- Quando o Facebook adquiriu o WhatsApp por US$ 19 bilhões em 2014, o WhatsApp defendia claramente o princípio de "sem anúncios, sem jogos, sem gimmicks"
- Por anos, mais de 2 bilhões de usuários do WhatsApp desfrutaram de uma experiência de conversas simples com amigos e familiares sem anúncios nem recursos extras
Contexto e formato da introdução dos anúncios
- O WhatsApp anunciou que, em 2024, passará a introduzir anúncios pela primeira vez na aba Updates do app
- A área de Updates é uma seção que cerca de 1,5 bilhão de usuários acessam diariamente
- Forma de coleta de dados para segmentação de anúncios
- Localização do usuário
- Idioma padrão do dispositivo
- Não haverá acesso a dados centrais de privacidade, como conteúdo das mensagens e com quem a pessoa conversa
- O WhatsApp acrescentou que "não há planos de colocar anúncios em chats ou mensagens privadas"
Posição com ênfase em privacidade
- Nikila Srinivasan (VP de Product Management do WhatsApp) explicou, sobre a introdução desse recurso, a "importância de abordar isso pela perspectiva da privacidade"
- Foi reafirmado que mensagens privadas, chamadas e status continuam protegidos por criptografia de ponta a ponta
Diferença em relação à filosofia dos fundadores
- Os fundadores Jan Koum e Brian Acton, ao criarem o WhatsApp em 2009, buscaram operar um app de mensagens focado até o fim em criptografia de ponta a ponta e simplicidade
- Ambos os fundadores deixaram a empresa há 7 anos, e essa mudança marca uma diferença importante em relação à filosofia original dos fundadores
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Fico curioso se existem estatísticas sobre quantas pessoas realmente usam serviços essenciais, especialmente serviços de e-mail pagos. Acho ineficiente esse modelo em que o provedor do serviço não recebe diretamente do usuário e uma terceira parte fica com uma grande fatia no processo — sob o nome de “serviço gratuito”, você acaba entregando seus dados pessoais, sua atenção e até sua influência política. UX, qualidade do conteúdo, atenção, privacidade e impacto social, tudo piora. No fim, penso que deveríamos voltar para uma estrutura de “pagar pelo que usa”. Gostaria que existissem mais modelos de serviço pago que realmente ajudassem o usuário.
Lembro de quando o WhatsApp era um app pago. Na época, lembro de amigos e familiares tentando de todo jeito usar de graça para evitar pagar uma taxa de menos de 1 euro. Um SMS curto custava 0,25 euro por mensagem, e até quem gastava tranquilamente 3 euros em uma Coca-Cola no bar não era exceção. Ainda existe essa mentalidade “antiga” de que software, por não ser um objeto físico visível, deveria ser grátis, e de que copiar digitalmente não é roubo. As pessoas não entendem que operar os servidores do WhatsApp custa dinheiro de verdade. Por isso grandes serviços digitais acabam sendo sustentados por anúncios. Não ligam para privacidade, só procuram uma forma de se livrar dos anúncios porque são irritantes, mas não querem pagar. Para constar, venho de um país europeu onde a pirataria também é comum.
Não tenho números exatos, mas minha sensação é de que muita gente diz “eu preferiria pagar um valor pequeno e usar sem anúncios”, porém pouquíssimos realmente chegam a pagar. O YouTube Premium é um bom exemplo: conheço muita gente que passa o dia inteiro no YouTube, mas quase ninguém de fato assina o serviço pago — além de mim, só conheci mais uma pessoa. Até engenheiros com renda alta criticam o modelo de anúncios sem realmente pagar. Eu também não pago por lealdade ao Google, e sim porque a assinatura realmente vale a pena para mim.
Pela minha experiência, a taxa de conversão para serviços pagos fica na faixa de 1% a 2% do total. A taxa de conversão paga da Nebula também é menor que 1%, e a vid.me fracassou de forma parecida. Os usuários odeiam anúncios, odeiam assinatura e odeiam doação. Dá vontade de dizer a essas crianças egoístas generosas com conteúdo gratuito — que agora já estão na faixa dos 40 anos — que elas não têm o direito de criticar um serviço sem pagar diretamente por ele. Na prática, o modelo baseado em publicidade não vai desaparecer. Se a única coisa garantida na escolha for o “grátis”, as pessoas esmagadoramente deixam os anunciantes comandarem o sistema.
Quando usei a internet pela primeira vez, nos anos 1980, bastava pagar pela conexão, e quase não havia um monte de VCs tentando arrancar alguma vantagem no meio do caminho. Acho uma pena que, para a geração mais jovem, a internet esteja limitada a sites www e endpoints de apps. Se a internet atual é mais útil do que antes, isso se deve aos avanços de hardware, como equipamentos de rede, e não a intermediários tentando lucrar com o uso alheio por meio de coleta de dados, vigilância e serviços de publicidade. Pagar esses intermediários, na verdade, só reforça ainda mais a estrutura de coleta de dados e vigilância. As pessoas se enganam ao pensar “ninguém paga por software, então eles são obrigados a ganhar dinheiro vendendo dados”; fazem isso simplesmente porque não há regulação legal suficiente e porque dá muito lucro.
Lembro que o WhatsApp custava 1 dólar por ano, ou talvez 1 dólar vitalício. Eu mesmo paguei na época. Mas, se apagasse e reinstalasse o app, dava para continuar usando de graça; lembro que era um “modelo WinRar”. Naquele tempo, a maioria não pagava, e imagino que o valor fosse tão baixo que nem fazia diferença, já que eles próprios abandonaram o modelo pago antes mesmo da aquisição pelo Facebook.
Me surpreende que oficialmente não houvesse promoções pagas nos canais do WhatsApp. Eu sempre achei que esse tipo de promoção paga fosse praticamente obrigatório em plataformas assim. Nunca usei os canais diretamente. Já a função de atualizações de status parece ser realmente bastante usada, então acho que anúncios ali provavelmente teriam efeito.
Pelo menos na Holanda, o WhatsApp conseguiria sobreviver até se exibisse um anúncio não pulável de 60 segundos toda vez que fosse aberto, graças ao efeito de rede. Sem o WhatsApp, você perde avisos de pais da escola, times esportivos, família e até notícias da concessionária de carro.
Tenho sentido um aumento recente e forte no uso do Signal na Holanda. Durante anos, eu só tinha alguns poucos contatos lá — em sua maioria gente de tecnologia ou amigos mais preocupados com privacidade. Antes, todos também usavam WhatsApp, então eu frequentemente acabava perdendo mensagens do Signal. Mas, desde janeiro deste ano, a queda de confiança na Meta virou um tema social, e comecei a receber convites para grupos no Signal de pessoas “comuns” ao meu redor. Dois grupos locais de pais também migraram naturalmente para o Signal, e ninguém sequer questiona mais “precisamos mesmo usar Signal?” — virou algo aceito como natural.
Esse fenômeno é parecido também em países em desenvolvimento, como o Quênia. No Quênia, mesmo quando o pacote de dados móveis acaba, as operadoras abrem uma exceção para que o WhatsApp continue funcionando de graça. Virou praticamente infraestrutura essencial do dia a dia.
Não é como se não houvesse alternativas. Só acho que, desde que não haja anúncios dentro das mensagens, a maioria continuaria usando sem grandes problemas.
Na Índia é parecido. A maior parte dos negócios, do contato com clientes e até da comunicação entre polícia e vítimas, ou entre políticos e cidadãos, acontece quase toda pelo WhatsApp. Já está tão consolidado que gente comum mal sabe o que é SMS. Eu vivo sem WhatsApp sem grandes inconvenientes, embora reconheça que isso seja uma posição relativamente privilegiada. Na verdade, não usar WhatsApp me ajuda a evitar fake news, spam e a “WhatsApp University” — uma gíria indiana para a circulação acrítica de informações de origem duvidosa.
Desde que o Facebook comprou o WhatsApp por 19 bilhões de dólares, muita gente aponta como diferencial o fato de ele não ter anúncios, jogos ou funções caça-níquel, mas eu acho essa leitura superficial. Vejo isso como um modelo insustentável no longo prazo: receber investimento de VC sem ter uma forma clara de ganhar dinheiro, sustentar a operação enquanto conquista participação de mercado primeiro, e só depois tentar monetizar de algum jeito.
Talvez a minha leitura seja a superficial. Em 2010, comprei o WhatsApp por 3 euros na loja de apps do BlackBerry. Na época, uma equipe de 20 pessoas administrava mensagens em 200 países, e o serviço funcionava em todas as plataformas, o que lhe dava condições de virar padrão mundial. O fato de não estar preso aos ecossistemas da Apple e do Google também era importante.
Não entendo por que isso seria insustentável. Eles basicamente cobravam 1 dólar por ano e poderiam facilmente gerar centenas de milhões de dólares em receita anual; imagino que, com algumas dezenas de funcionários, isso já bastasse para bancar servidores e equipe. Mesmo se subissem o preço para 2 a 5 dólares, a aceitação provavelmente continuaria semelhante.
Isso é uma “estratégia de isca”. Você atrai o máximo possível de usuários oferecendo de graça e, quando o efeito de rede torna difícil migrar para alternativas, aí sim aplica vários mecanismos de monetização.
Segundo um artigo do TechCrunch, na época da aquisição pelo Facebook, a posição oficial era: “durante anos vamos focar em crescimento, não em anúncios; e, se um dia monetizarmos, não será com publicidade”.
Pelo que ouvi, os fundadores Jan e Brian continuaram resistindo à introdução de anúncios mesmo após a aquisição, insistindo em manter a assinatura de 1 dólar. Sheryl Sandberg rejeitou isso alegando problema de escala, e os VCs, no fim das contas, só se importavam com o exit. Mas os fundadores nunca tiveram interesse no negócio de anúncios e, até hoje, parecem manter uma posição parecida.
Sobre o histórico de desenvolvimento do WhatsApp: a criptografia de ponta a ponta, originalmente implementada pelos fundadores Jan Koum e Brian Acton, foi introduzida pela Meta reutilizando parte do código do Signal. Isso foi bastante comentado, então é uma pena que o artigo tenha deixado esse ponto de fora.
Tenho dúvidas sobre a alegação de que 1,5 bilhão de pessoas verão promoções na área “Atualizações” do app. É preciso distinguir se essas 1,5 bilhão de pessoas realmente usam esse recurso de forma ativa, ou se apenas passam por ele porque ele aparece logo ao abrir o aplicativo.
Eu pagaria com prazer para usar o WhatsApp se ele fosse oferecido por alguém que não fosse o Facebook/Meta. Mas, sendo operado pela Meta, acho certo que mesmo pagando eu ainda sofreria invasão de privacidade e coleta de dados.
Isso parece o mesmo padrão que aconteceu com as Facebook Pages no passado: queda de alcance orgânico → incentivo a anúncios pagos → um paraíso de publicidade. Quando Meta/Facebook compra qualquer serviço, ele inevitavelmente acaba virando uma mistura de anúncios e spyware — é quase uma lei da natureza.
Na Alemanha, o WhatsApp tem status S-tier, do mais alto nível. Se existisse uma API oficial, eu até toparia pagar por mensagem. Mesmo que fosse introduzida cobrança por mensagem, eu não enviaria tantas a ponto de a experiência piorar. Na verdade, acho que isso até reduziria o excesso de mensagens e a fadiga de notificações.
Como existem usuários que usam o serviço fora do app oficial e contornam restrições, o WhatsApp reprime esse tipo de uso com bastante força. É parecido com o bloqueio do Reddit a clientes de terceiros.
Surgiu uma pergunta sobre o significado de “S-tier”.
Sobre a ideia de que pagar por mensagem faria as pessoas se controlarem e mandarem menos, comentaram que essa estrutura se parece com o SMS atual.