Procrastinação produtiva - por que acabamos fazendo outras tarefas produtivas em vez daquilo que deveríamos fazer
(maxvanijsselmuiden.nl)- Analisa, sob a perspectiva da neurociência, as causas psicológicas do fenômeno da 'procrastinação produtiva (productive procrastination)', em que adiamos a tarefa principal, mas ainda assim fazemos outras atividades produtivas
- A procrastinação surge quando a amígdala (amygdala), ao tentar proteger a pessoa de emoções negativas, sobrepõe as funções do córtex pré-frontal ligadas a planejamento e controle de impulsos
- Como o sistema de recompensa da dopamina reage fortemente a estímulos novos, projetos novos parecem mais atraentes do que projetos antigos
- O efeito de licenciamento moral (moral licensing), em que ações produtivas anteriores funcionam como uma espécie de indulgência psicológica, acaba justificando a evasão da tarefa central
- Apresenta estratégias concretas de solução, como rotular emoções, auto-perdão e desenho de hábitos, com base em pesquisas em neurociência
Matriz de produtividade
- A matriz de produtividade em 4 quadrantes apresentada no vídeo sobre produtividade de Casey Neistat classifica em quatro categorias o fenômeno de evitar a tarefa que deveria ser feita (X) enquanto se faz outra atividade (Y) que passa sensação de produtividade
- Atividades de evasão como videogames, assistir TV e tarefas administrativas se encaixam nessa ideia, mas o caso de realizar atividades que são produtivas e divertidas ao mesmo tempo não se encaixa com precisão em nenhuma categoria dessa matriz
- O estado de fazer algo produtivo e prazeroso, mas que não é a tarefa principal, é chamado de 'procrastinação produtiva (productive procrastination)'
Seu cérebro está tentando proteger você
- A procrastinação surge do conflito entre dois sistemas do cérebro: a amígdala (amygdala) processa ameaça, recompensa e emoções, enquanto o córtex pré-frontal (PFC) cuida de planejamento, controle de impulsos e raciocínio de longo prazo
- Quando uma tarefa desencadeia emoções negativas como ansiedade, tédio ou medo de fracassar, a amígdala assume o comando e leva a pessoa a evitar essas emoções
- A conclusão lógica é que é preciso lidar com as próprias emoções negativas associadas à tarefa principal
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Recompensa pela novidade
- Há um fenômeno em que projetos novos parecem mais motivadores do que projetos antigos
- Na análise de 20 dados de edição de vídeos de viagens de moto, observou-se que quanto maior o intervalo entre a data original da gravação e a data da edição, menor a produção diária
- Dois vídeos recentes classificados como 'especiais' apresentaram produção relativamente alta
- Depois do início do trabalho em tempo integral (19 de janeiro, entrada na Sandfield), a produtividade geral caiu, mas a produção dos vídeos especiais continuou se destacando
Base científica
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Sistema de recompensa
- O sistema de recompensa do cérebro funciona em torno da dopamina e, segundo o estudo de Schultz(1998), a dopamina é liberada em resposta a sinais que preveem recompensa, enquanto estímulos imediatos geram sinais mais fortes do que estímulos abstratos no futuro
- O estudo de Bunzeck & Düzel demonstrou que o cérebro responde de forma especial à novidade do estímulo (stimulus novelty), e que estímulos novos ativam o loop hipocampo-VTA (hippocampal-VTA), fortalecendo aprendizagem e memória
- Wittmann et al.(2007) descobriram que só pistas que preveem estímulos novos já ativam o sistema de recompensa
- Em contraste, estímulos familiares passam por supressão por repetição (repetition suppression), o que enfraquece a resposta do cérebro
- É exatamente esse mecanismo de recompensa pela novidade que explica a excitação e o entusiasmo ao começar um projeto novo
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Evitar a culpa
- A própria culpa por não fazer a tarefa principal pode se tornar a emoção negativa associada a essa tarefa
- A culpa deveria levar ao início do trabalho, mas também pode reforçar a própria dificuldade de começar, criando um ciclo infinito
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Licenciamento moral (Moral Licensing)
- Segundo o estudo de Monin & Miller(2001), ações 'boas' do passado criam uma permissão psicológica para ações 'ruins'
- Ao concluir atividades produtivas fora da tarefa principal, como redesign de portfólio, criação de site de receitas ou experimentos com IA local, o cérebro se engana achando que já foi produtivo o suficiente e passa a considerar aceitável não fazer a tarefa central
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Efeito Zeigarnik (Zeigarnik Effect)
- Tarefas inacabadas permanecem na memória de trabalho, gerando tensão cognitiva, e tendem a ser lembradas melhor do que tarefas concluídas
- Segundo o estudo de Masicampo & Baumeister, só o fato de criar um plano concreto para uma tarefa inacabada já reduz a carga cognitiva
- Em contrapartida, o viés de conclusão (completion bias) leva à preferência por terminar primeiro tarefas pequenas e fáceis, em vez de tarefas importantes e difíceis
- A combinação entre a emoção positiva de concluir tarefas pequenas e a emoção negativa de deixar uma tarefa grande inacabada intensifica a culpa
Soluções
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Reintroduzir a novidade
- Os dados e a ciência apontam para duas causas centrais: o cérebro prefere novidade e tenta proteger a pessoa das emoções negativas ligadas à tarefa que precisa ser feita
- Para recuperar o interesse em um projeto antigo, é preciso introduzir estímulos que façam o projeto parecer novo
- Por exemplo, experimentar uma nova técnica de edição de vídeo é uma forma de fazer isso
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Rotulagem emocional (Affect Labeling)
- Segundo o estudo de Lieberman et al., dar nome a estímulos emocionais ativa o freio do córtex pré-frontal
- Como a procrastinação é impulsionada por emoções negativas, reconhecer explicitamente a emoção interrompe a resposta automática de evasão
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Auto-perdão (Self-Forgiveness)
- No estudo de Wohl, Pychyl & Bennett(2010), estudantes que praticaram auto-perdão por terem procrastinado no exame intermediário reduziram de forma significativa a procrastinação no exame seguinte
- O auto-perdão reduz a culpa, enquanto a autocrítica amplia justamente as emoções negativas que o cérebro tenta evitar
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Formação de hábitos (Habit Formation)
- Associar um gatilho à tarefa (por exemplo: "ao sentar à mesa às 9h, faço a tarefa principal por 30 minutos") pode reduzir a barreira inicial
- Começar a tarefa é a parte mais difícil e, por si só, entender os princípios psicológicos da procrastinação já ajuda a reduzir a culpa
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