- O dogfooding, de usar diretamente o próprio produto da empresa, é um princípio antigo do setor de tecnologia, mas não basta para vivenciar até mesmo a experiência das reclamações reais dos clientes
- Os sistemas automatizados de resposta das centrais de atendimento das grandes empresas exaltam a inovação tecnológica, mas na prática não conseguem resolver as reclamações reais dos clientes
- Como na história de Jeff Bezos, que ligou pessoalmente para o atendimento ao cliente da própria empresa e ficou esperando por mais de 10 minutos, o ponto central é que executivos de nível C vivenciem diretamente a jornada do cliente
- Em contraste, uma pequena startup, após o cancelamento de uma assinatura, fez com que a liderança sênior ligasse diretamente para ouvir as reclamações e reconhecer que também estava ciente do mesmo problema
- Dogfooding não é apenas usar internamente o próprio produto: só experimentar diretamente os incômodos enfrentados pelos clientes e ouvir de perto a raiva e a frustração reais pode levar a melhorias em produtos e serviços
Experiência do cliente e os limites do ‘Dogfooding’
- Ao passar pela central de atendimento de uma grande empresa, dá para perceber que ela é indiferente à qualidade real do atendimento ao cliente
- Ao ligar, só se repetem respostas automáticas, como orientações para usar o site ou sugestões de conexão com um chatbot de IA
- Na prática, não foi possível encontrar no site as informações desejadas, e o cancelamento também não podia ser feito online
- Falhas na previsão do volume de chamadas e sistemas ineficientes fazem a insatisfação dos clientes se acumular
- No próprio site, essa empresa se gaba de transição para IA, excelência técnica e qualidade com certificação ISO, mas a experiência do cliente não chega a esse nível
- Falta interesse em melhorar o atendimento ao cliente, e o problema está na postura da gestão, que não vivencia diretamente a experiência do cliente
O verdadeiro significado de ‘Dogfooding’
- Dogfooding é uma prática central do setor de tecnologia para validar qualidade e confiabilidade ao usar diretamente o próprio produto
- Assim como funcionários do Slack não podem usar Teams, a regra é usar o produto da própria empresa também internamente
- Mas o simples uso, por si só, não é suficiente
- No passado, ao trabalhar em uma operadora de telecomunicações, os funcionários às vezes atuavam no call center para ouvir diretamente as reclamações dos clientes
- Só ao sentir de perto a raiva e o desconforto dos clientes nasce uma verdadeira empatia e vontade de melhorar
- Um simples relatório de KPI não permite entender a dor real do cliente
A ausência de experiência do cliente entre executivos
- Há a história de Jeff Bezos, que durante uma reunião ligou diretamente para a central de atendimento e ficou esperando por mais de 10 minutos
- Esse caso mostra o quão raro é que executivos experimentem diretamente o atendimento ao cliente da própria empresa
- “Quando foi a última vez que o seu CEO ligou para a central de atendimento?”
- Não basta experimentar o produto dentro da empresa apenas quando tudo funciona normalmente; é preciso também passar diretamente pela jornada do cliente quando há problemas
O caso contrastante de uma startup
- A experiência de cancelamento de assinatura de uma pequena startup mostra uma postura de resposta genuína ao feedback do cliente
- Um dos executivos seniores perguntou se poderia ligar diretamente, telefonou para ouvir as reclamações, demonstrou empatia e expressou vontade de melhorar
- Em vez de uma postura defensiva do tipo “nossos indicadores não mostram problema”, mostrou disposição para entender o ponto de vista do cliente
- Essa abordagem aumenta a confiança do cliente e se torna o ponto de partida para melhorar a qualidade do serviço
‘Cheirar os próprios peidos (Try smelling your own farts!)’
- Ir além de simplesmente usar o próprio produto e experimentar diretamente até as experiências desagradáveis é o que torna a melhoria possível
- “Sentir o cheiro do resultado desagradável que você mesmo produziu” é justamente o processo de uma verdadeira autoavaliação
- É preciso não ignorar o desconforto do cliente, mas reconhecer o problema por meio da experiência direta e melhorá-lo
- No fim, mais importante do que inovação tecnológica é a empatia genuína e o senso de responsabilidade pela experiência do cliente
4 comentários
Opiniões no Hacker News
Há uma história de que Jeff Bezos ligou diretamente para o atendimento ao cliente e esperou mais de 10 minutos
Eu também trabalhei numa empresa com muita burocracia e disputa política. Quando eu abria o app de verdade durante a reunião e mostrava o problema, os líderes que só exibiam slides bonitos ficavam desconcertados. No fim, virei um “inimigo” interno por mostrar a realidade
Num emprego antigo, o VP of Product disse que a expressão “eat your own dogfood” era “nojenta” e propôs trocar por “drink your own champagne”. Mas eu acho que justamente essa expressão desconfortável cria identificação. O ponto central é experimentar o produto cedo do ponto de vista do cliente
Eu sempre abordo o atendimento ao cliente com expectativas baixas. Mesmo que demore, o truque é aguentar com paciência. Meu pai ainda fica furioso quando não recebe o serviço pelo qual pagou. Ele adora dizer: “Esta ligação está sendo gravada, certo?”
Fiquei com a frase “Eat your own dog food and smell your own farts” na cabeça. A primeira parte significa usar o próprio produto; a segunda, vivenciar até as partes ocultas, como suporte ao cliente e pagamentos
O autor trata dogfooding como algo sagrado no contexto de suporte ao cliente, mas em grandes empresas o atendimento ao cliente não é considerado parte do produto. Funcionários do Facebook ou do Google não usam o atendimento comum dos clientes
Muitas vezes o dogfooding precisa ser obrigatório. Mas, se for mal feito, você acaba resolvendo problemas diferentes dos dos usuários reais.
Nossa equipe está criando o processador de texto jurídico Tritium, e se passarmos a usá-lo como se fosse o Word, a direção do produto se perde. Por isso escrevemos sobre esse equilíbrio neste post do blog.
Por causa disso, sinto que em B2B SaaS softwares comerciais podem até ser melhores para QA
Empresas pequenas têm uma estrutura em que a dor do cliente é sentida diretamente, então resolvem os problemas mais rápido. Já nas grandes empresas, o papel de cada um é pequeno demais e o impacto no cliente fica invisível. Por isso substituem isso por sistemas de feedback metrificados, mas há muita perda de sinal
Para mim, dogfooding não é apenas lealdade ao produto, mas o processo de testá-lo usando aquilo que está em desenvolvimento. Ou seja, é provar você mesmo o produto quando ele ainda está no estado mais bruto
Os problemas aparecem quando desenvolvedores e arquitetos não assumem responsabilidade pela operação do sistema que criaram. Isso é um caso clássico de “no skin in the game”
As duas experiências mais absurdas que tive com atendimento ao cliente
A maioria dos problemas vem de sites de autoatendimento horríveis. Só de fornecer informações simples já daria para reduzir muito os custos do call center
Até o help desk da concorrência era mais útil. Mas, por causa da estrutura de monopólio, eu não podia usá-lo
Antes vi em algum lugar uma sugestão, em coreano, de usar a expressão "comer comida caseira" em vez de "dogfooding", e achei que "comer comida caseira" também soa bem.
Coreano que leva comida a sério....
É bom comer comida caseira.