2 pontos por GN⁺ 2026-01-23 | 2 comentários | Compartilhar no WhatsApp
  • Douglas Adams explica que Arthur Dent, protagonista de O Guia do Mochileiro das Galáxias, pode parecer anti-heróico para os americanos, mas no Reino Unido é visto como um herói bastante típico
  • No Reino Unido, é comum considerar herói um personagem consciente da derrota e da impotência, e existe uma cultura que aprecia o fracasso com humor e empatia
  • Já nos EUA, é mais difícil transformar o fracasso em piada, e o herói é visto como uma figura ativa que persegue objetivos e muda os resultados
  • Adams diz que teve dificuldade em explicar em Hollywood a “heroicidade anti-heróica” de Arthur, e encontrou um ponto de conciliação na fala de um produtor: “se a existência dele influencia o desenrolar dos acontecimentos, então ele é um herói”
  • Essa discussão revela a distância cultural entre o humor britânico e a narrativa americana de sucesso, mostrando diferenças na forma de enxergar fracasso e impotência

A resposta de Douglas Adams e o ideal britânico de herói

  • Adams explica que o herói britânico é alguém que percebe que não consegue controlar a vida
    • Cita como exemplos Pilgrim, Gulliver, Hamlet, Paul Pennyfeather e Tony Last
    • O Reino Unido tem uma cultura de celebrar derrotas e recuos, como a Batalha de Hastings, a evacuação de Dunquerque e derrotas no críquete
  • Ele menciona que Book of Heroic Failures, de Stephen Pile, foi um best-seller no Reino Unido, mas fracassou nos EUA
    • Pile disse que “nos EUA, não se pode fazer do fracasso uma piada”, e Adams concorda com isso
  • Adams descreve Arthur Dent como alguém que, para os americanos, parece não ter stock options nem motivo para comemorar com um high five, mas que, para os britânicos, é um verdadeiro herói por tomar seu chá calmamente

O problema de interpretação em Hollywood

  • Adams comenta que em Hollywood frequentemente lhe perguntavam: “qual é o objetivo de Arthur?”
    • Ele respondia: “ele só quer que tudo isso pare”, o que entra em choque com a narrativa heroica americana
  • David Vogel, da Disney, disse que “se a existência de Arthur influencia o desenrolar dos acontecimentos, então ele é um herói”, reconhecendo essa heroicidade anti-heróica
  • Adams avaliou que, no roteiro mais recente, as características anti-heróicas de Arthur foram bem preservadas

Diferenças culturais sobre fracasso e humor

  • O autor do blog diz que leu Book of Heroic Failures com prazer e destaca o valor de um livro que elogia o fracasso em um mundo cheio de obras que exaltam a competência
  • No Reino Unido, uma pessoa fracassada tende a se tornar “objeto de identificação de todos”, enquanto nos EUA tende a virar alvo de pena ou desprezo
  • A cultura americana vê o fracasso como um revés temporário ou algo a ser superado, valorizando a agência individual de quem constrói o próprio mundo

Observação conclusiva

  • As falas de Adams revelam uma diferença fundamental entre as estruturas narrativas de heroísmo no Reino Unido e nos EUA
    • Reino Unido: alguém que mantém a dignidade mesmo em meio à impotência e à resignação
    • EUA: alguém que age ativamente em direção a um objetivo
  • Essa diferença se desdobra em atitudes culturais distintas diante do humor, da percepção do fracasso e da autonomia individual

2 comentários

 
roxie 2026-01-23

Com certeza Arthur Dent não parece ser americano.

 
GN⁺ 2026-01-23
Comentários do Hacker News
  • Quero falar sobre uma sensação que tive ao assistir Broadchurch com a minha esposa
    O personagem do David Tennant é realmente muito ruim no trabalho. Por isso, a premissa é que ele foi rebaixado para uma cidadezinha isolada. Se fosse uma série americana, um fracasso desses viria com alguma explicação como trauma ou corrupção, mas aqui a própria incompetência é o centro da história
    Em todo episódio, ele suspeita de alguém e, no fim, descobre que a pessoa era inocente, então a gente assistia gritando: “Cara, ele é muito ruim nisso!”
    Até pegar o culpado no final acontece não por competência dele, mas por acaso e por um erro do criminoso. Depois disso, passamos a procurar personagens do tipo “ser humano comum que não faz nada direito, mas continua no centro de tudo”

    • Isso também é parecido com a premissa central de Slow Horses. É uma série da AppleTV com Gary Oldman sobre um escritório onde ficam os rejeitados do MI5, gente a quem não se pode confiar trabalho importante
    • Curiosamente, em Hot Fuzz (com Olivia Coleman também), o protagonista é tão bom no que faz que acaba sendo transferido para o interior. É exatamente o oposto de Broadchurch
    • Mas, em Broadchurch, Tennant foi criticado por causa de um mal-entendido que surgiu ao tentar proteger a esposa. A esposa dele perdeu uma prova, e ele ficou calado por causa da filha. Então, mais do que incompetente, ele era alguém próximo de um sacrifício moral
    • Essa estrutura de “suspeitar da pessoa errada toda vez” também aparece em Midsomer Murders. O ex-presidiário sempre vira suspeito, mas no fim é inocente; por outro lado, se aparece um antigo colega, é certeza de que está escondendo algo
    • Só por curiosidade, também existe o remake americano de Broadchurch, Gracepoint. Tennant participa do mesmo jeito. Fico curioso se nessa versão o motivo do fracasso é explicado um pouco melhor
  • Recentemente, assistindo One Punch Man, comecei a pensar no que seria um “verdadeiro herói”
    Saitama e os heróis de topo são fortes demais, então quase não existe risco ou sacrifício. Já Mumen Rider encara monstros com nada além de uma bicicleta, tentando proteger civis por pelo menos alguns segundos. Isso sim parece um herói de verdade
    Por esse critério, Avengers e Superman não passam de uma fantasia de poder

    • Spider-Man varia conforme o autor, mas especialmente na trilogia do Raimi ele sempre sofre por causa do equilíbrio entre a vida pessoal e o papel de herói
    • Naruto também é parecido. Naruto e Sasuke nasceram com uma linhagem privilegiada, enquanto Sakura vem de uma origem comum e cresce só pelo esforço. Por isso, as lutas dela emocionam mais
    • Esse tipo de configuração acaba gerando dispositivos forçados como a kryptonita ou uma plot armor grossa demais
    • A piada do treinamento do Saitama, “100 flexões, 100 agachamentos”, mostra bem a sátira dentro da simplicidade
    • Em Alice in Borderland, personagens que lutam sem superpoderes, só com inteligência e coragem, passam muito mais a sensação de serem heróis de verdade. A cena em que arriscam tudo no jogo do King of Diamonds foi especialmente marcante
  • Charlie Brown é um personagem excepcional, até nos EUA, por ter tornado o fracasso algo querido
    Ele continua fracassando, mas é amado por causa da sinceridade e do otimismo. Nesse ponto, ele é diferente do “humor de perdedor” britânico

    • Como autor do post original, acho interessante a diferença entre Charlie Brown e Arthur Dent. CB supera o fracasso com otimismo, enquanto Arthur Dent aceita a realidade com reclamação e resignação. Por isso, CB é adorável, e Arthur é alguém com quem dá para se identificar
    • Nas histórias americanas existe essa sensibilidade de que “se ainda há esperança, então não é fracasso”. Homer Simpson também é burro, mas nunca desiste
    • Em contrapartida, a série Discworld, do autor britânico Terry Pratchett, está cheia de personagens que tentam mudar o mundo com força de vontade. Ao contrário de Adams, é uma fantasia britânica centrada na ação
    • Mas, nos EUA, CB às vezes acaba sendo tratado só como um ‘otário’ que não aprende, por mais que tente
    • Pessoalmente, vejo Peanuts não como uma narrativa contínua, mas como um quadrinho que mostra fragmentos da vida. Por isso, está mais perto de um drama cotidiano filosófico do que de uma história de herói. Para mim, ficou como nostalgia da infância
  • Existe um vídeo de perguntas e respostas do Stephen Fry sobre esse mesmo tema (link do YouTube)
    Eu também, como britânico, concordo com o que ele diz. Muitas vezes acho o humor americano difícil de assimilar; parece ser uma diferença cultural

    • A analogia que Fry faz entre ‘alta igreja vs protestantismo’ foi marcante. Os EUA têm uma cultura protestante competitiva, voltada a reforçar a autoconfiança. Acho que a ascensão e queda dos impérios também influenciaram. No Reino Unido, a memória do declínio; nos EUA, a confiança da expansão permeia o humor
    • Mas a comédia americana hoje em dia está ficando cada vez mais britânica. Obras como It’s Always Sunny, com personagens que colhem as consequências dos próprios atos, parecem mais próximas da sensibilidade britânica
    • Na ficção científica, a diferença também é grande. Doctor Who e Blake’s 7, do Reino Unido, são muito mais sombrios, e Red Dwarf simplesmente não funcionaria do mesmo jeito no estilo americano. O humor escocês é ainda mais cínico
    • Por outro lado, eu pessoalmente até prefiro a comédia americana. O humor britânico às vezes carrega tanto essa ideia de “o mundo já foi para o espaço” que pode ser cansativo
    • Eu também não entendia o humor britânico quando era mais novo, mas, conforme fui me acostumando com a cultura, passei a “decifrar o código”.
      A comparação entre The Office (UK vs US) é um bom exemplo. David Brent pode parecer um sujeito cruel, enquanto Michael Scott é recebido como um personagem excêntrico, mas bondoso. Essa diferença de percepção mostra uma distinção cultural fundamental
  • O fenômeno de que Adams fala está ligado à mudança da cultura britânica após a Primeira Guerra Mundial
    O sentimento de impotência do pós-guerra está na raiz da narrativa do ‘protagonista incompetente’. Tolkien e C.S. Lewis reagiram a essa corrente tentando criar figuras heroicas fortes

    • James Bond, de Fleming, e Nicholas Nickleby, de Dickens, também entram nesse contexto. São resultado de uma geração que viveu a queda do império e tentou reconstruir a própria identidade
  • O otimismo americano é bom, mas uma cultura que não consegue reconhecer o fracasso impõe um peso psicológico enorme
    O fracasso também faz parte do crescimento, mas ao negar isso ficamos com a sensação de continuar sendo uma sociedade imatura

    • Mas os EUA têm uma crença forte de que “não é fracasso enquanto você não desistir”. Há muitos exemplos, como os experimentos de Edison, a cultura de pivotar do Vale do Silício e a recuperação depois da falência.
      É uma cultura que odeia o fracasso, mas perdoa quem continua tentando
    • Especialmente no setor de tecnologia, o fracasso é visto como um ponto de dados. A lógica de Edison — “não falhei, apenas descobri 1.000 maneiras que não funcionam” — continua válida
  • O cinismo britânico e o final de Hitchhiker’s Guide to the Galaxy são o auge do ‘niilismo burocrático’
    A visão de mundo do Adams chega tão perto de um desespero cósmico que, a partir de certo ponto, deixou de ser engraçada e passou a ser triste

  • Nos EUA é difícil fazer do fracasso uma piada, mas na Europa Donald Duck cumpre esse papel
    Mickey é perfeito demais e por isso é sem graça, enquanto Donald tem muitos defeitos e parece humano

    • Eu cresci nos EUA vendo Duck Tales, mas o protagonista não era Donald, e sim o tio rico Scrooge McDuck. Donald era quase coadjuvante
    • Na verdade, mesmo nos EUA, Mickey é mais uma imagem simbólica do que um personagem realmente interessante
  • Romances britânicos que li na infância, como Harry Potter e Alex Rider, na verdade me pareceram mais próximos da narrativa heroica americana
    São protagonistas com forte autonomia e senso de propósito, então imagino que isso tenha ajudado na popularidade deles nos EUA. Fico curioso se essas obras são exceções dentro do YA britânico

    • Acho que Harry Potter segue a estrutura clássica da narrativa heroica da fantasia
    • Roald Dahl, por outro lado, faz todos os personagens serem excêntricos e cheios de humor
    • Doctor Who também é um bom exemplo
    • O sucesso de Harry Potter não se deve apenas à estrutura heroica, mas também à rede de distribuição americana, como a Scholastic Book Fair.
      Além disso, a cultura britânica dos internatos parecia uma fantasia exótica para os leitores americanos.
      Por motivos parecidos, há quem diga que Naruto fez mais sucesso nos EUA do que no Japão
  • Voltando à discussão sobre Charlie Brown, o ponto central é o ‘olhar da narrativa’, não o ‘resultado’
    O fracasso do CB é revestido de resistência emocional, enquanto o fracasso britânico é retratado como absurdo cósmico.
    Arthur Dent fica entre esses dois mundos — é o símbolo do ser humano comum que sobrevive em meio à confusão