25 pontos por GN⁺ 2025-12-15 | 3 comentários | Compartilhar no WhatsApp
  • A prática recorrente de "fazer funcionários saírem após alguns anos" em consultorias famosas, bancos de investimento e escritórios de advocacia não é uma cultura irracional, mas um mecanismo estrutural para sinalizar competência e maximizar lucros
  • No início, a empresa consegue avaliar com mais precisão a capacidade individual e, por isso, o funcionário aceita um salário relativamente mais baixo, mas o simples fato de ter trabalhado em uma empresa de elite já se torna um sinal poderoso
  • Com o tempo, o mercado externo também passa a conseguir observar a capacidade individual, e a empresa, para manter essa diferença, passa a "demitir" funcionários intencionalmente (churn) a partir de certo momento, elevando ainda mais o valor dos talentos que ficam
  • A reputação de mercado dos funcionários demitidos e dos que permanecem não difere muito, mas internamente os profissionais com capacidade um pouco menor saem primeiro, gerando um efeito em que a reputação da empresa e dos funcionários que ficam sobe ao mesmo tempo
  • Nesse processo, quem permanece aceita salários abaixo do mercado como "custo para ser escolhido", a empresa preserva seus lucros, e os profissionais que mudam de emprego também conseguem alta remuneração no mercado graças ao sinal de terem passado por uma empresa renomada, formando um equilíbrio estável

Visão geral da pesquisa

  • Este estudo foi conduzido por economistas financeiros da University of Rochester e da University of Wisconsin–Madison
  • O artigo foi publicado na American Economic Review e analisa o fenômeno da rotatividade de pessoal em empresas profissionais de elite
  • Os pesquisadores explicam, com um modelo matemático, a estrutura em que reputação, assimetria de informação e retenção de talentos interagem
  • A análise abrange profissões em que o desempenho individual aparece com clareza, como direito, consultoria, gestão de ativos, contabilidade e arquitetura

A estrutura de contratação, treinamento e saída nas empresas de elite

  • Consultorias famosas, bancos de investimento e escritórios de advocacia selecionam os melhores talentos, treinam de forma intensa e depois dispensam uma parte significativa deles alguns anos depois, criando uma estrutura de porta giratória
    • Isso aparece de forma recorrente em McKinsey, Goldman Sachs e em todo o setor de serviços profissionais em que o resultado é atribuído ao indivíduo, como direito, gestão de ativos, auditoria e arquitetura
  • Essa estrutura surge porque os clientes não conseguem avaliar com precisão a capacidade individual no início, então a empresa passa a exercer o papel de uma espécie de intermediária (mediator)

A estrutura do período inicial de "quiet period"

  • No começo da carreira, a empresa é quem conhece melhor a capacidade do funcionário, então paga salários padronizados e decide quem permanece
    • Nessa fase, os funcionários recebem remuneração abaixo do mercado, mas o simples fato de continuar em uma empresa de elite já funciona como um forte sinal para o mercado
  • Com o passar do tempo, os clientes também passam a observar diretamente a capacidade dos funcionários por meio do desempenho (casos assumidos, rentabilidade, resultado de projetos etc.)

Por que a empresa cria intencionalmente o churn

  • Quando o mercado externo começa a entender melhor a capacidade dos funcionários, a vantagem informacional da empresa diminui, e surge pressão para pagar salários mais altos a parte deles
  • Nesse momento, a empresa manda alguns funcionários embora e, com esse movimento:
    • reforça o prêmio reputacional dos funcionários que ficam
    • sinaliza aos que permanecem que o poder de escolha ainda está nas mãos da empresa, levando-os a aceitar salários abaixo do valor de mercado
  • O ponto central: os profissionais dispensados não saem por serem ruins, mas apenas por serem considerados um pouco inferiores na comparação interna; aos olhos dos clientes, todos parecem talentos excelentes

A formação de um "equilíbrio paradoxal"

  • Funcionários que permanecem: aceitam salários mais baixos no curto prazo, mas esperam maior retorno de mercado no longo prazo por causa da experiência em uma empresa de prestígio
  • Funcionários que saem: graças ao sinal de terem passado por uma empresa renomada, são vistos pelo mercado como profissionais de alta capacidade, o que aumenta suas chances de sucesso
  • Empresa: mantém salários mais baixos para quem fica por meio da estrutura de rotatividade e garante seus lucros de forma estável
  • Como resultado, a "cultura severa de porta giratória" funciona não como acaso ou ineficiência, mas como um dispositivo estratégico para reduzir a assimetria de informação e maximizar os ganhos de ambos os lados

Não é cultura do setor, mas produto da estrutura de informação

  • O estudo destaca que o modelo "Up-or-Out" não é apenas uma cultura, mas um resultado estrutural da manutenção da reputação e do fluxo de informação
  • A substituição contínua de pessoal em empresas famosas funciona não como uma prática desumana, mas como uma estratégia de sinalização de mercado e otimização de receita
    • Os funcionários aceitam perdas no curto prazo, mas acumulam capital reputacional no longo prazo
    • As empresas usam a assimetria de informação para preservar simultaneamente reputação e receita
  • Essa estrutura também acelera o próprio processo pelo qual o mercado identifica talentos realmente de alto nível, ao mesmo tempo em que protege os lucros da empresa
  • No conjunto, essa estrutura é vista como um equilíbrio paradoxal, porém estável, que aumenta a eficiência da seleção de talentos e do sistema de remuneração no mercado

3 comentários

 
t7vonn 2025-12-22

Obrigado. Graças a este estudo, agora existe mais um pretexto para demitir pessoas.

 
yeobi222 2025-12-16

Dá bastante a impressão de ser um estudo com uma intenção bem clara.

 
GN⁺ 2025-12-15
Opiniões no Hacker News
  • A estrutura é tal que a empresa reduz o salário dos bons funcionários que ficam para manter ou aumentar os lucros, e nesse contexto o papel dos sindicatos é importante.
    A empresa apresenta a negociação individual como “justa”, mas na prática tem uma vantagem esmagadora em capital e possibilidade de substituição.
    Por mais especial que um funcionário pareça, no fim ele é tratado como alguém substituível, e a empresa está sempre pronta para trocá-lo.
    Se um funcionário for realmente insubstituível, a empresa na verdade começa imediatamente a procurar um substituto para reduzir esse risco.
    • A negociação coletiva não é popular no Hacker News, mas justamente os trabalhadores de tecnologia são um grupo que precisa se organizar.
    • Como alternativa mais ideal aos sindicatos, haveria empresas de propriedade dos funcionários ou uma cultura de mobilidade voluntária em um mercado de trabalho altamente competitivo.
      Mas quando o mercado de trabalho fica rígido, os sindicatos continuam sendo um forte mecanismo de proteção.
    • Em contraste, também há quem veja os sindicatos como uma estrutura de exploração em benefício dos líderes. Os funcionários não ganham dinheiro, mas sim prestígio, e depois transformam esse prestígio em dinheiro na próxima etapa da carreira.
  • Ou então, a razão pela qual empresas de ponta dispensam bons funcionários é, na maioria das vezes, política interna.
    Trata-se das preferências pessoais dos gestores, de uma estrutura em que o mérito do time não é reconhecido, ou de um interminável reorg (reestruturação organizacional).
    Em um mercado saudável, bons talentos deveriam poder circular livremente, e em uma organização saudável deveria haver esforço para requalificá-los ou retê-los.
    Grandes empresas continuam crescendo apesar da perda de pessoal graças à demanda pelos produtos.
    • Mas o alvo deste artigo não são empresas comuns, e sim organizações que usam o modelo ‘Up or Out’, como as Big Four de auditoria ou a McKinsey.
      Nessa estrutura, os funcionários prestam serviço diretamente aos clientes, então os pressupostos são diferentes dos de empresas comuns de TI.
    • Na prática, na maioria das empresas ninguém se importa com quem trabalha bem ou mal. No fim, networking e gestão de impressão determinam recompensa e punição.
      É preciso demais como funcionários excelentes deixam de ser reconhecidos, enquanto quem sabe se promover é promovido.
    • Essa estrutura é parecida com uma filosofia de stack ranking.
  • Ouvi dizer que a estrutura Up or Out é uma forma organizacional essencial na indústria de consultoria.
    Os resultados de Deloitte, McKinsey e PwC eram em sua maioria medíocres ou formais, e isso parece decorrer de uma estrutura de incentivos ruim.
    Ainda assim, quando alguém de fora diz a mesma coisa, a liderança tende a ouvir melhor, então existe um efeito de validação externa.
    • De fato, numa experiência em consultoria nos anos 90, escrevi no relatório exatamente o que ouvi conversando e fumando com os funcionários, e fui elogiado por ser “perspicaz”.
      Mas precisar desse tipo de validação externa é normalizar a incompetência da gestão. É um problema de liderança que não confia no talento interno.
    • Empresas de consultoria são obcecadas por métricas mensuráveis e criam incentivos perversos que distorcem a realidade para bater metas.
      No fim, essas empresas priorizam a própria reputação e a manutenção dos contratos acima dos interesses do cliente.
      Um líder que usa consultores externos como base para decisões não é um líder de verdade, mas um gestor que foge da responsabilidade.
      Contratam pessoas excelentes, mas os conselhos delas ficam presos em manuais padronizados e não levam a melhorias reais.
      Indicadores de desempenho não devem ser usados como base de decisão, mas apenas como ferramentas para levantar perguntas.
  • Acho que essa discussão ignora a autonomia dos funcionários.
    Funcionários excelentes se tornam visíveis para os clientes e se preparam para sair, cansados da mediocridade e da injustiça internas.
    Já os piores funcionários não têm outras opções, ficam escondidos dentro da equipe por muito tempo e às vezes acabam até promovidos.
  • Não entendi este texto completamente, mas senti certa semelhança com o Cravath System.
    Para resolver o problema de talentos fracos ficarem por muito tempo e talentos fortes saírem para atuar por conta própria, a Cravath introduziu contratos curtos e uma estrutura clara de promoção.
    Depois de certo período, quem não se torna sócio é incentivado a ir para empresas clientes, preservando no longo prazo um efeito de rede.
    Já a maioria das empresas, em busca de lucro de curto prazo, vende caro talentos fracos e subvaloriza talentos fortes.
  • Em empresas de consultoria, funcionários excelentes têm dois caminhos.
    Um é subir para um papel centrado em vendas e relacionamento; o outro é migrar para o cliente e assumir uma posição com controle de orçamento.
    No fim, a empresa ganha dinheiro nos dois casos.
    • A forma mais segura de virar sócio é ter capacidade de vendas. Não importa o que se venda, o único objetivo é trazer receita.
  • Alguns pesquisadores ficam presos apenas à lógica econômica e carecem de sensibilidade ética. Chegam a publicar artigos como este.
    • Exato. Apresentar o sistema “Up or Out” como eficiente parece efeito de lavagem cerebral da linguagem corporativa (corpo speak).
      Esse tipo de discurso redefine a realidade com uma nova linguagem e lembra uma mentalidade de culto que justifica estruturas desumanas.
    • A lógica de que pagar pouco aos funcionários, demitir e oferecer serviços de baixa qualidade é “racional porque aumenta o lucro” parece uma ideia psicopática.
  • A realidade das Big Four na Índia é um jogo político.
    O chefe leva o crédito pelo trabalho do funcionário excelente, e depois é promovido por esse crédito.
    Em seguida, o novo chefe volta a absorver o mérito dos subordinados, e no fim os funcionários competentes são empurrados para um PIP (plano de melhoria de desempenho) ou vão embora.
    • Alguém rebate dizendo: “Trabalhei 15 anos e nunca vi isso”.
    • Outra pessoa questiona: “Então por que um gestor promovido não levaria consigo os bons talentos?”.
    • Mas alguém responde que “essa é a estrutura normal”: os melhores talentos abrem empresa, depois vem consultoria, depois trabalho independente, e por último o emprego em grandes corporações.
    • Há também quem veja nisso uma explicação para a ineficiência da Índia.
  • Acho difícil chamar empresas de consultoria como a McKinsey de ‘empresas de ponta’.
    • Elas fazem parte de um ecossistema político que vende ‘expertise’ cara a executivos pouco especializados.
    • O fenômeno tratado no artigo é interessante, mas não é surpresa que empresas de baixa qualidade tenham práticas de baixa qualidade.
  • No fim, o ponto central é a estrutura de margem.
    • À medida que o salário anual dos funcionários sobe, há um limite para quanto a empresa pode cobrar dos clientes, o que cria um problema de redução da margem de lucro.