Suprema Corte de Michigan: buscas irrestritas em celulares violam a Quarta Emenda
(reclaimthenet.org)- A Suprema Corte de Michigan proferiu uma decisão que reforça a privacidade digital
- O tribunal proibiu autoridades investigativas de vasculharem celulares inteiros com mandados excessivamente amplos
- Ficou claro que os mandados devem limitar o acesso apenas a informações diretamente relacionadas a um crime específico
- Buscas irrestritas em celulares foram consideradas violação do requisito de "particularidade" da Quarta Emenda
- O tribunal afirmou que mandados de busca digital devem necessariamente incluir especificidade e fundamento fático
Decisão da Suprema Corte de Michigan sobre os limites da busca digital
A Suprema Corte de Michigan esclareceu recentemente que, ao revistar dispositivos digitais como celulares, a emissão de mandados amplos que permitem acesso irrestrito a todos os dados viola o direito à privacidade garantido pela Constituição
Visão geral do caso: People v. Carson
- Michael Carson foi apontado como suspeito em um caso de furto de dinheiro de um cofre de um vizinho
- A polícia obteve um mandado de busca para seu celular, mas esse mandado não continha qualquer limitação de escopo da busca nem de período
- A equipe de investigação examinou todos os dados, incluindo mensagens, fotos, contatos e documentos, o que resultou na coleta excessiva até mesmo de informações pessoais sem relação com o caso
Ênfase no requisito de "particularidade" da Quarta Emenda
- A Quarta Emenda exige uma descrição clara de "quais itens e locais" podem ser objeto de busca e apreensão
- O tribunal decidiu que uma busca sem limitações configura uma investigação exploratória sem base adequada
Sensibilidade e amplitude das informações digitais
- Smartphones armazenam um volume enorme de informações sobre toda a vida de uma pessoa, como registros de saúde, dados financeiros, histórico de deslocamento e conversas privadas
- Uma busca sem restrições traz um risco de exposição de dados pessoais muito superior ao de buscas no mundo físico
Intervenção e posicionamento de entidades civis
- Electronic Frontier Foundation, ACLU National e ACLU of Michigan apresentaram memoriais ao tribunal, pedindo a adoção de critérios rigorosos para buscas digitais
- Essas entidades enfatizaram que o celular é um "recipiente de toda a vida privada de uma pessoa" e defenderam que mandados irrestritos esvaziam uma proteção significativa da privacidade
Principais pontos da decisão
- Quatro juízes formaram a maioria e enfatizaram que mandados de busca digital devem especificar concretamente o alvo da busca, seu escopo e o período
- O tribunal confirmou que, ao solicitar um mandado, a polícia deve apresentar com clareza o fundamento fático para acessar aquelas informações para que a ordem possa ser emitida
Referência adicional
- A questão também ganha destaque no contexto em que a frequência de buscas sem mandado em celulares em locais como a fronteira dos EUA atinge níveis recordes (ver matéria adicional)
1 comentários
Comentários do Hacker News
Há alguns anos, tive a chance de ver diretamente um investigador solicitar um mandado de busca e apreensão no gabinete de um magistrado; o mandado era para revistar sem qualquer limitação todo o conteúdo do celular de uma pessoa, e a suspeita criminal era violência contra um membro da família. À pergunta "qual é a base provável para acreditar que haverá provas desse crime específico no celular?", o investigador não tinha escrito fundamento algum na declaração do mandado e, na hora, soltou algo vago como "a natureza móvel da vida moderna e o fato de que todo mundo tem celular". No fim, o magistrado recusou o mandado, mas foi lamentável ver um retrato dessa tendência das instituições judiciais de tentar passar facilmente por cima do procedimento. Mesmo depois disso, ainda vejo com frequência pedidos de mandado voltados ao celular inteiro do suspeito
Em um caso, havia Michael Carson, suspeito de ter roubado dinheiro do cofre de um vizinho, e a polícia obteve um mandado para vasculhar sem limites todos os dados do celular dele — mensagens, fotos, contatos, documentos etc. Na prática, a maior parte dos dados coletados não tinha relação com a suspeita. É um caso realmente absurdo
Já que isso aconteceu, dá vontade de esperar que agora venha alguma responsabilização, como multa ou prisão
É até triste que essa decisão tenha saído na Suprema Corte de Michigan; pena que não foi num tribunal federal
Fiquei surpreso, como se de repente tivesse saído uma decisão em que o bom senso prevaleceu
Como referência, todo o estado de Michigan fica dentro da 'border zone' de 100 milhas da fronteira dos EUA, onde as proteções contra busca são muito mais fracas (link da ACLU); além disso, é preciso lembrar do precedente de que "a Constituição não concede proteção a estrangeiros que tentam entrar nos EUA" (link da wikipedia)
Agora eu queria que câmeras de vigilância com reconhecimento facial também fossem reguladas do mesmo jeito