O processo de evolução dos marketplaces
(generativevalue.com)- Marketplaces e o modelo agregador se consolidaram como uma das estruturas de negócio mais poderosas das últimas décadas, e agora seu futuro está sendo redefinido com a chegada da era da IA
- Pelos casos de Uber e Waymo, fica claro que a forma de conectar oferta e demanda está sendo automatizada e integrada, e que a ‘atenção’ do cliente está migrando da plataforma para o agente (IA)
- Os marketplaces ainda têm um fosso econômico, mas estão sendo desafiados em três frentes: comoditização, competição com sistemas fechados e perda do ponto de contato com o cliente
- Em especial, se o controle da ‘atenção’ do cliente passar para os agentes de IA, as plataformas existentes correm o risco de perder grande parte da rentabilidade e do poder de domínio
A evolução dos marketplaces
- Recentemente, durante uma corrida de Uber, me deparei com uma estatística de que a Waymo atingiu 25% de participação no mercado de ridesharing em São Francisco
- Isso me levou naturalmente a pensar no impacto da Waymo sobre a Uber
- A pergunta fundamental: qual é o futuro dos agregadores?
- As empresas de maior sucesso dos últimos 30 anos, em sua maioria, seguiram o modelo agregador
- Oferecem serviços que reúnem informação (oferta), concentram atenção (demanda) e conectam esses dois elementos
- Mas agora, em uma era em que o centro da atenção está migrando para a IA, como esse modelo vai mudar?
- As empresas de maior sucesso dos últimos 30 anos, em sua maioria, seguiram o modelo agregador
Objetivo deste texto: analisar o passado, o presente e o futuro dos marketplaces
- É preciso entender quais elementos impulsionaram o sucesso dessas empresas nos últimos 20 anos
- Para isso, a análise se concentra no Marketplace, o modelo agregador mais representativo
- Este é um momento especialmente interessante para estudar marketplaces porque há:
- Uma pergunta sobre a demanda: em um mundo baseado em agentes, quem controla a atenção? (ex.: ChatGPT reservando hotel)
- Uma pergunta sobre a oferta: o que acontece quando a oferta é automatizada? (ex.: Waymo vs Uber)
- Uma pergunta sobre a economia do modelo: os marketplaces realmente conseguem capturar os retornos de domínio de mercado que se esperava deles?
Estrutura do texto
- A história dos marketplaces
- A economia e o modelo de negócios dos marketplaces
- O modelo econômico de marketplaces em estágio mais maduro, como a Uber
- As possibilidades futuras dos marketplaces
1. A história dos marketplaces e o timing das ondas tecnológicas
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O desenvolvimento dos mercados antigos
- Os mercados físicos começaram há milhares de anos como meio de troca de recursos (ex.: 1 libra de grãos ↔ 1 libra de carne)
- Com o tempo, os mercados cresceram, e o número de compradores e vendedores aumentou
- Observação importante: quanto maior o mercado, mais possível é especializar o trabalho → aumento de produtividade
- Mas o crescimento era limitado por restrições físicas como espaço, segurança e geografia
- Adam Smith explicou isso pelo conceito de “divisão do trabalho (Division of Labour)”
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Os primeiros marketplaces digitais
- A internet foi a primeira inovação tecnológica que tornou os marketplaces digitais possíveis
- A internet ofereceu a capacidade de conectar informações e agregá-las
- Conceito central: a inovação nos negócios reflete a tecnologia que a tornou possível
- Em 1995, Pierre Omidyar lançou o AuctionWeb, precursor do eBay
- O eBay cresceu como um marketplace voltado a transações honestas e transparentes
- Em apenas dois anos, vendeu US$ 500 milhões só em Beanie Babies
- Depois passou a vender carros, jatos e iates, e adquiriu PayPal, Skype e StubHub
- Em 2000, a Amazon lançou o 3rd party Marketplace
- Na mesma época, também surgiram OTAs (agências de viagem online) como Expedia (1996) e Priceline (1997)
- Conectavam voos e hotéis vazios à demanda vinda da internet
- Criavam valor econômico ao conectar oferta ociosa à demanda
- Foram descritas como “fazer dinheiro do nada (money out of nowhere)”
- A internet, por não ter restrições físicas, ofereceu uma estrutura propícia para mercados de “o vencedor leva tudo”
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A segunda onda de marketplaces digitais: cloud e mobile
- O surgimento de Cloud e Mobile desencadeou a segunda onda de inovação
- Como os marketplaces tendem a ser “o vencedor leva tudo”, o timing é importante
- Vence a empresa que gira primeiro o flywheel de oferta e demanda
- Principais eventos tecnológicos:
- 2005: lançamento da Google Maps API
- 2006: Amazon lança a AWS
- 2007: Apple apresenta o iPhone e abre o ecossistema de apps
- Essa combinação tecnológica marcou o momento em que se tornou possível desenvolver novos apps, distribuí-los e expandir suas funcionalidades
- 2008: fundação da Airbnb (na época, Airbedandbreakfast)
- O anúncio da AWS por Jeff Bezos teve grande impacto sobre os fundadores
- Ao conectar oferta de moradias não utilizadas, criou um mercado de transações baseado em confiança
- Transformou um mercado de aluguel de curta duração antes arriscado e pequeno em um mercado amplo baseado em confiança
- 2009: fundação da Uber → fornecimento imediato de transporte
- Expandiu-se em escala superior à do mercado tradicional de táxis
- 2013: fundação da DoorDash → popularizou o mercado de entrega de comida
- Fatores de sucesso da DoorDash: popularização dos smartphones
- Consumidores em geral passaram a se acostumar com pedidos online
- Entregadores puderam participar facilmente da rede usando seus próprios dispositivos
- Criou-se um ambiente em que restaurantes podiam receber pedidos online
- Fatores de sucesso da DoorDash: popularização dos smartphones
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Resumo da fórmula de sucesso dos marketplaces
- 1. Quanto maior o mercado, mais o trabalho se especializa e maior a produtividade → quanto maior o mercado, melhor
- 2. No ambiente digital, como não há restrições, estruturas de “o vencedor leva tudo” se formam naturalmente
- 3. A empresa que gira mais rápido o flywheel de oferta e demanda domina o mercado → o aporte de capital é o ponto decisivo
- Airbnb: captou mais de US$ 6 bilhões enquanto ainda era privada
- Uber: cerca de US$ 20 bilhões
- Lyft: cerca de US$ 5 bilhões
- DoorDash: cerca de US$ 3 bilhões
→ No fim, quem garante mais fôlego financeiro para aguentar por mais tempo acaba definindo quem ocupa o lugar de dominador do mercado
2. A estrutura econômica dos marketplaces
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Princípio básico dos marketplaces
- O conceito é simples: conectar demandantes e ofertantes dispersos e ficar com uma parte do valor transacionado como comissão
- Crítica comum: marketplaces seriam negócios de produtos sem diferenciação, centrados em commodity, e a competição por custos seria o único fator de diferenciação
- → Por isso, estas perguntas se tornam importantes:
- 1. Por que marketplaces são um modelo de negócio atraente?
- 2. Quais elementos tornam um marketplace específico mais atraente?
- 3. Ao aplicar um marketplace ao problema certo, como ele pode escalar?
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Por que marketplaces são um negócio atraente?
- A explicação do investidor Nick Sleep é central:
- Os melhores negócios têm três elementos:
- Enorme tamanho de mercado (offering size)
- Altas barreiras de entrada (offering longevity)
- Baixo gasto de capital (offering free cash flow)
- Os melhores negócios têm três elementos:
- Muita gente pensaria na Amazon, mas a empresa usada por Nick Sleep como exemplo foi o eBay
- Um marketplace baseado em leilão naturalmente se concentra em uma única plataforma
- Os clientes arcam com os ativos necessários para transacionar (PC, internet etc.)
- Expandir o negócio quase não exige ativos adicionais → o custo de crescimento é muito baixo
- A explicação do investidor Nick Sleep é central:
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Fatores que criam o fosso econômico (moat) dos marketplaces
- Receita = volume total de transações × take rate
- O take rate é a proporção que a plataforma captura em cada transação
- A estrutura de receita é definida pela competitividade, e os fatores abaixo influenciam isso:
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Concentração de ofertantes e demandantes
- Quanto mais dispersos estiverem ofertantes e demandantes, menor será o poder de barganha de cada participante individual
- A plataforma pode oferecer receita incremental real aos ofertantes
- Quanto mais fragmentado o mercado, maior o valor de um marketplace
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Relação entre valor da transação e comissão
- Quanto maior o valor da transação, menor tende a ser o percentual de comissão
- Ex.: transações imobiliárias não usam pagamento com cartão de crédito porque o custo da comissão seria muito alto
- Quanto maior o valor da transação, menor tende a ser o percentual de comissão
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Existência de substitutos
- Quanto menos concorrentes houver, maior o poder de precificação (capacidade de definir comissão)
- Concorrentes incluem não apenas marketplaces alternativos, mas também formas de operar sem usar marketplace algum
- Quanto menos concorrentes houver, maior o poder de precificação (capacidade de definir comissão)
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Valor criado por serviços adicionais
- A Airbnb expandiu o mercado e se diferenciou por meio do elemento confiança (trust)
- Depois disso, ficou mais difícil para concorrentes entrarem no mercado
- Outros serviços adicionais: pagamentos, certificação de qualidade, seguro, prevenção a fraudes etc.
- Esses serviços são difíceis de copiar e aumentam o switching cost
- A Airbnb expandiu o mercado e se diferenciou por meio do elemento confiança (trust)
- Receita = volume total de transações × take rate
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Como um marketplace pode escalar?
- A competitividade de um marketplace vem da escala (Scale)
- A chave da expansão é resolver o problema do “ovo ou a galinha”
- É preciso haver demanda para atrair oferta, e oferta para atrair demanda
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Etapas gerais da estratégia de expansão
- 1. Começar o marketplace de forma limitada, focando em um grupo específico de usuários
- Ex.: a Uber começou em São Francisco
- 2. Depois, expandir gradualmente oferta e demanda ao mesmo tempo
- 3. Não existe nenhuma estratégia secreta especial
- É preciso execução consistente por anos, e captar o máximo de capital possível é, na prática, o único “cheat code”
- 1. Começar o marketplace de forma limitada, focando em um grupo específico de usuários
3. A estrutura econômica de marketplaces em estágio mais maduro
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Captura de receita após dominar o mercado
- Até aqui, foram analisados a estrutura econômica, a adequação do modelo e a estratégia de expansão dos marketplaces
- A premissa central: a razão para captar enormes volumes de capital era, no fim, a crença de que seria possível monetizar depois de dominar o mercado
- Uber e Lyft mostram esse modelo como casos representativos de marketplaces em estágio mais maduro
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Crescimento composto dos efeitos de rede
- Quanto mais usuários uma plataforma tem, maior a qualidade do serviço e mais rápida a conexão entre oferta e demanda → surge um efeito de rede composto
- Esse efeito se fortalece à medida que a escala da plataforma aumenta
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Comparação de take rate: Uber vs Lyft
- O take rate da Lyft, no trimestre mais recente, foi de 37%
- O take rate de mobilidade da Uber foi de 30,3% (fica ainda menor se incluir Uber Eats)
- Ainda assim, a Uber tem um valor de mercado maior
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Participação de mercado e poder de precificação
- Quanto maior a participação de mercado, maior também o poder de precificação
- Isso acaba levando a margens e rentabilidade mais altas
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A estrutura econômica refletida no valor da empresa
- Quanto maior a escala e a participação, maior o valor da empresa
- Plataformas que dominam o mercado conquistam valuations elevados
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Conclusão importante
- Mas nem todo marketplace segue esse caminho
- Na prática, são muito poucos os marketplaces que realizaram esse padrão de sucesso
→ Isso leva naturalmente à próxima pergunta: então, que futuro espera os marketplaces daqui para frente?
4. Qual será o futuro dos agregadores?
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Reorganizando o objetivo do texto
- Este texto apresentou até aqui uma visão geral básica da estrutura e do modelo econômico dos marketplaces
- A proposta é oferecer uma moldura de pensamento para refletir sobre o futuro
- Como cada marketplace tem demanda e oferta próprias, não existe resposta única; cada caso exige sua própria interpretação
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Três cenários possíveis para o futuro dos marketplaces
- 1. Crescimento contínuo e aumento de receita
- 2. Enfraquecimento da rentabilidade por comoditização
- 3. Perda de espaço na competição com sistemas fechados
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Cenário 1: crescimento por inércia e composição dos lucros
- Marketplaces orientados por rede continuam melhorando a rentabilidade com base no moat já existente
- Depois que o mercado se satura, seguem crescendo junto com a taxa de crescimento do próprio mercado
- Ex.: Airbnb tem uma marca forte que dificulta a entrada de concorrentes
Amazon tem uma rede de distribuição tão poderosa que é muito difícil alcançá-la - Esses marketplaces têm economias de escala e poder de precificação, e sua rentabilidade continua melhorando
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Cenário 2: marketplaces comoditizados
- Crítica principal: plataformas que apenas agregam demanda, sem oferta diferenciada, têm dificuldade para defender sua receita
- Ter oferta única como a Airbnb é algo muito difícil
- Mas Booking e Expedia são casos de sucesso mesmo sem oferta exclusiva
- Gastam, respectivamente, 31% e 50% da receita em publicidade no Google
- Ainda assim, seguem registrando alta lucratividade
- Conclusão: mesmo com comoditização, ainda é possível preservar a rentabilidade com marketing e estratégia de marca
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Cenário 3: competição com sistemas fechados
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O cenário mais interessante: um mundo em que a própria oferta é automatizada
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Um sistema fechado (Closed-Loop) é um modelo em que a empresa fornece a oferta diretamente
- Ex.: Waymo opera seus próprios veículos e atende os usuários diretamente
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Em mercados homogêneos, o que o cliente mais valoriza é preço baixo e experiência consistente
- O fato de a experiência da Waymo ser muito superior ajuda a explicar por que conquistar 25% de participação em São Francisco não foi por acaso
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Mas a Uber não acabou
- Vantagem do marketplace: escalar rapidamente
- Vantagem do sistema fechado: controle da experiência do usuário
→ Os dois modelos entram em conflito por natureza, mas um não substitui completamente o outro
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Limite do desenho da oferta: demanda máxima vs demanda média
- A Waymo não pode dimensionar sua frota com base no pico de demanda (assim como os táxis também não podem)
- Exemplo de Nova York: há 13 mil táxis e 100 mil veículos de rideshare
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Modelo ideal: estrutura híbrida
- A oferta principal fica a cargo de um sistema fechado, enquanto as variações da demanda são absorvidas por um marketplace flexível
- Ex.: a colaboração entre Uber e Waymo em Austin e Atlanta
→ Para o usuário, isso pode oferecer ao mesmo tempo experiência de alta qualidade e escalabilidade
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Pergunta que permanece: a quem pertence o valor econômico?
- Nesse mundo híbrido, quem ficará com a maior parte do valor?
- Quem vai controlar a camada mais defensável da stack?
- Como a receita vai fluir dentro dessa estrutura?
- Isso se parece com o debate Google vs ChatGPT
- Não dá para afirmar com certeza qual dos dois modelos vai vencer,
- mas uma coisa é clara: o modelo de negócios do Google atual não vai ficar melhor
Pergunta final: quem controla a atenção do usuário?
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Mudança na propriedade da relação com o cliente
- Em 2015, Ben Thompson explicou no texto Airbnb and the Internet Revolution que a Airbnb e a economia compartilhada comoditizaram a confiança
- Com isso, argumentou que se tornou possível um novo modelo de negócios baseado em agregação de recursos + gestão do relacionamento com o cliente
- Mas o que acontece com esse modelo se a empresa deixar de administrar diretamente a relação com o cliente?
- Em 2015, Ben Thompson explicou no texto Airbnb and the Internet Revolution que a Airbnb e a economia compartilhada comoditizaram a confiança
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Exemplo: quando o ChatGPT faz a reserva do hotel
- Se um usuário pede ao ChatGPT para reservar um hotel:
- O ChatGPT pode concluir a reserva automaticamente por meio de uma API de integração nativa com Expedia ou Booking.com
- As preferências de hospedagem do usuário passam a se acumular dentro do ChatGPT
- Aos poucos, o usuário deixa de visitar OTAs (Online Travel Agency) diretamente com tanta frequência
→ Essa mudança tem impacto claramente negativo sobre o modelo de negócios tradicional das OTAs
- Se um usuário pede ao ChatGPT para reservar um hotel:
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O desafio fundamental ao modelo de OTA
- As OTAs geraram receita até aqui ao gerenciar diretamente a experiência e a relação com o cliente
- Mas, se uma interface baseada em IA passar a intermediar o cliente,
- o esforço investido em marca, UX e marketing afunda para baixo da superfície
- e a plataforma corre o risco de virar apenas uma 'fornecedora de funcionalidade'
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A origem real dessa ideia
- Isso não é mera imaginação, mas algo baseado em casos reais
- A conversa entre DoorDash e OpenAI trata esse problema como uma questão concreta
- Isso não é mera imaginação, mas algo baseado em casos reais
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O importante efeito de segunda ordem provocado pela IA
- Onde, por quem e como a atenção do usuário é gerenciada é o principal ponto de competição dos marketplaces do futuro
- A IA pode tomar das plataformas o ponto de contato com o cliente
“Uma resposta mediana para uma boa pergunta é mais importante do que uma resposta excelente para uma pergunta mediana.”
- Ainda não há uma resposta clara para esse problema
- Mas, na era da IA, a mudança na posse do relacionamento com o cliente pode ser um dos fatores de maior impacto sobre os marketplaces
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