O assassino silencioso das startups
(2lr.substack.com)- “A maioria dos membros do conselho não consegue compensar as próprias limitações”, e “ser um bom membro de conselho (Board) é muito difícil”
- Quando você se observa com honestidade, percebe que exercer bem o papel no conselho não é nada simples
- A maioria das pessoas tende a achar que é adequada para um conselho, mas na prática há muitos equívocos sobre papel, responsabilidade, autoridade e a relação com o fundador
- Caso do próprio autor: ele é excelente em compreender rapidamente uma situação e propor soluções, mas tinha limites para se tornar um ótimo membro de board
- O capital, a experiência e as perguntas de investidores às vezes agregam valor, mas com frequência também viram obstáculos
- Se não houver entendimento claro da diferença fundamental entre investimento e governança, a empresa acaba sofrendo
Investidores: seu trabalho não é gerenciar, e sim apoiar
- Como investidor, você investe em uma startup porque confia no fundador
- Você aporta capital porque acredita que o fundador pode aprender, executar e fazer ajustes ao longo do caminho
- O investimento é uma aposta na capacidade de execução do fundador, não uma desculpa para microgerenciamento ou para aliviar sua própria ansiedade
Seu papel
- Stay informed
- Isso significa acompanhar atentamente as atualizações regulares, fazer as perguntas necessárias e, quando preciso, levantar pontos de forma construtiva
- É uma abordagem baseada em curiosidade e colaboração, não em controle ou ansiedade
- Be available
- Você deve estar pronto para responder sempre que o fundador entrar em contato
- Seu papel é ser alguém que apoia e ajuda quando solicitado, não agir movido por ego
- Know your limits
- Administrar a empresa é responsabilidade do fundador
- A decisão final cabe ao fundador
- Os melhores investidores entendem isso de forma instintiva
- Os piores confundem “investimento = poder de decisão” e atrapalham a operação da empresa com interferência excessiva
Exemplo: depois do investimento, o investidor insiste de forma irrealista para contratar um CFO famoso ou um VP vindo de FAANG
- À primeira vista isso parece ótimo, mas na prática muitas vezes não se encaixa no estágio da empresa, fracassa, ou faz o fundador desperdiçar tempo e recursos apenas para apaziguar o investidor
Governança: a mão invisível que pode salvar ou destruir uma startup
- Governança é um conceito totalmente diferente de investimento
- Se você virou membro do conselho, seu papel não é tocar a operação da empresa em si, mas criar um “ambiente em que a operação possa funcionar bem”
- Isso significa:
- Setting up the right structure
- Definir uma estrutura na qual a composição do conselho seja adequada, a frequência das reuniões faça sentido e os conflitos tenham formas claras de resolução
- Creating an environment for hard conversations
- Criar um ambiente que permita conversas francas, sem cálculo político nem maquiagem
- Holding people accountable
- O fundador é responsável por executar, o conselho por apoiar, e quando surgem problemas há responsabilidade de intervir de forma rápida e eficaz
- Setting up the right structure
- A governança ideal é eficiente, clara e barata de manter a ponto de até parecer entediante
- A pior governança é caótica
- É o caso de conselhos montados apenas em torno de quem colocou mais dinheiro, ou com membros demais, atrasando decisões
Exemplo: uma startup cujo conselho ficou dividido porque quatro investidores perseguiam objetivos diferentes
- O fundador não conseguia focar na operação real do negócio porque precisava arbitrar a disputa política entre os investidores
- No fim, o problema foi resolvido reduzindo o conselho para três pessoas, definindo regras claras de decisão e reorganizando as reuniões com foco em ação
Governança de conselho? Esqueça isso até a empresa ficar grande o suficiente
- Para startups em estágio inicial (Seed~Series A), introduzir uma governança formal em excesso não é algo prático
- Num momento em que é preciso avançar rápido com uma equipe pequena, estruturas complexas de conselho com comitês e votações não combinam com a realidade
- Como é uma fase que exige decisões rápidas e comunicação flexível, importa mais um ambiente em que os membros-chave conversem de perto do que uma governança formal
A partir de quando uma governança formal começa a fazer sentido?
- Quando a empresa já tem receita real, uma equipe executiva está formada e o negócio está estável o suficiente para não depender apenas da paixão do fundador
- Quando aumentam as decisões que afetam dezenas ou centenas de pessoas
- Quando a empresa se torna mais complexa e surge a necessidade de estruturar responsabilidades de forma sistemática
E antes disso? Governança está mais próxima de conversa do que de processo
- Muitos investidores não são adequados para ser membros do conselho
- Ter investido uma grande quantia não significa automaticamente que essa pessoa deva ter poder de governança
- Investidores muitas vezes não conseguem administrar por conta própria conflitos internos como:
- O que é melhor para a empresa?
- O que é melhor para o retorno financeiro?
- O que é melhor para o ego?
- Quando a situação fica difícil, a maioria acaba priorizando o próprio interesse ou agindo com base no medo
- O fundador precisa minimizar o risco de deixar pessoas com esse tipo de conflito de interesse influenciar decisões centrais da empresa
Exemplo
- Induzir um exit propondo uma aquisição para realizar o investimento, mesmo quando a empresa poderia crescer muito mais
- Pressionar por uma rodada com valuation artificialmente alto para inflar o valor do portfólio
- Exigir contratações excessivas ou mudanças organizacionais por não confiar no fundador
- O pior de tudo é que muitos fundadores acham que não têm opção e simplesmente deixam isso acontecer
- O poder de escolher membros do conselho é do fundador, não deve ser definido automaticamente pelo maior investidor
- Algo que muitos fundadores esquecem: no fim, é você quem decide quem estará no conselho
- Não é necessário colocar automaticamente no conselho quem investiu mais, quem fala mais alto ou quem tem o currículo mais chamativo
- Ao captar recursos, você não está escolhendo apenas capital, mas também escolhendo quem terá poder dentro da empresa
- Bons fundadores definem expectativas claras desde o primeiro dia
- “Dinheiro não compra cadeira no conselho; valor é que conquista esse lugar”
- “Não precisamos de um conselho cheio de pessoas preocupadas apenas em proteger a própria participação”
- “Esta empresa é minha; eu decido quem ajuda a administrá-la”
- VCs costumam tratar uma cadeira no conselho como uma ‘contrapartida natural’ do valor investido, mas os melhores fundadores negociam esse ponto com firmeza
A governança pode impulsionar você ou afundar você
- Boa governança funciona como um grande árbitro: quase não aparece, mas ajuda a manter o jogo justo
- Governança ruim se torna um obstáculo fatal que abala a empresa inteira
- O fundador deve desenhar o conselho para que ele seja uma força de impulso, não um fardo
- É preciso mantê-lo enxuto, escolher apenas pessoas que tragam valor real e não se deixar arrastar por investidores incapazes de resolver seus próprios conflitos
- Em essência, investidores investem, fundadores executam
- No momento em que um invade o papel do outro, a empresa perde velocidade e impulso
- A governança deve funcionar como uma ponte para a operação da empresa, não como um gargalo
“Suppress the noise” — eliminar ruídos desnecessários (interferência) e confusão é o objetivo final
3 comentários
Foi isso que senti ao olhar para o conselho, e li o texto fazendo esse paralelo. Entendi que, quando criei a empresa no começo, o que eu estava fazendo até agora era uma governança em nível de conversa! Vou tentar estruturar isso bem.
Tenho uma dúvida que queria perguntar: no conselho, há uma pessoa que oferece opiniões objetivas, apoio e incentivo, além de ajuda com networking. Mas fico pensando se, ao receber investimento inicial e essa pessoa entrar como um C-level central da empresa, não surgiria um conflito de interesses e isso acabaria comprometendo o valor. Existe alguma boa forma de resolver isso?
Li com bastante interesse.
Nas empresas coreanas, muitas vezes a composição do conselho acaba sendo apenas para cumprir tabela, e esse tipo de questão é algo que você só percebe de verdade depois de empreender e fazer a empresa crescer a ponto de precisar de governança. Ainda assim, achei que valia compartilhar porque é um tipo de leitura que faz bem fazer antes.
> Mesmo quando a empresa poderia crescer mais, agir de forma a induzir um exit propondo um preço de aquisição para recuperar o investimento
Quando você passa por algo assim uma vez, a confiança nos investidores despenca.