- Há 2 anos, enquanto fazia testes de vulnerabilidade em casa, vivi algo estranho
- Subi um servidor HTTP em uma instância da AWS para buscar um arquivo de um servidor vulnerável
- Tudo parecia configurado corretamente, mas no momento em que eu ia voltar ao teste de vulnerabilidade, apareceu um log inesperado
- Alguém interceptou a mesma requisição HTTP entre minha rede doméstica e a instância da AWS e a reenviou 10 segundos depois
- Esse tráfego deveria ser inacessível e não deveria haver nenhum intermediário
- Meu pensamento imediato foi que meu computador tinha sido hackeado e que um invasor estava monitorando ativamente o tráfego
- Verifiquei se o mesmo fenômeno acontecia no iPhone, e um endereço IP desconhecido interceptava e reenviava tanto as requisições HTTP do computador quanto as do iPhone
- Parecia mais provável que ISP, modem ou AWS tivessem sido comprometidos
- Para descartar a ideia absurda de que a AWS havia sido hackeada, subi uma instância no GCP e o mesmo fenômeno ocorreu
- A única possibilidade restante era que o modem tivesse sido hackeado, mas quem seria o atacante? Ao consultar o proprietário do endereço IP, vi que ele pertencia à DigitalOcean
- Esse IP havia sido usado nos últimos anos para vários sites de phishing e servidores de e-mail
- Como o dispositivo comprometido continuava funcionando, desliguei-o da tomada e o guardei em uma caixa
- Fui a uma loja da Cox, devolvi o modem comprometido e recebi um novo
- Depois de instalar o novo modem, o comportamento estranho parou, mas eu ainda não sabia exatamente como o modem havia sido comprometido
- Três anos depois, durante férias com amigos especialistas em segurança, acabei contando esse caso, e eles se interessaram e começaram a investigar
- Ao examinar os domínios registrados por aquele endereço IP, encontraram uma grande quantidade de domínios gerados algoritmicamente, sugerindo um servidor de C&C
- O atacante realizava várias atividades maliciosas a partir do mesmo IP, mas não havia sido derrubado em 3 anos. Era difícil entender sua intenção
- Como o novo modem era do mesmo modelo, também considerei a possibilidade de o atacante tê-lo comprometido novamente
- Chamou atenção o fato de que, por meio do protocolo TR-069, o ISP pode gerenciar os dispositivos. Se a infraestrutura das ferramentas de suporte fosse atacada, seria possível assumir o controle dos modems
- Ao analisar o JavaScript do portal empresarial da Cox, foram descobertos mais de 700 caminhos de API. Entre eles, as APIs com mais funções de acesso a equipamentos e contas de clientes eram
accountequipment, datainternetgateway e account
- Foi encontrada uma vulnerabilidade que permitia contornar a autenticação. Reenviando repetidamente requisições HTTP, era possível executar comandos sem autorização
- Confirmou-se que era possível se comunicar diretamente com o equipamento de qualquer pessoa usando o endereço MAC. A Cox atende milhões de clientes
- Foi demonstrado que era possível sobrescrever configurações do equipamento, acessar o roteador e executar comandos no dispositivo, obtendo privilégios semelhantes aos da equipe de suporte técnico do ISP
- Trata-se de uma vulnerabilidade que, sem pré-requisitos, permitiria alterar as configurações de milhões de modems, acessar PII de clientes e obter privilégios no nível da equipe de suporte do ISP
- O cenário de incidente seria o seguinte
- Buscar clientes empresariais da Cox via API
- Obter PII do cliente, como endereço MAC do equipamento, e-mail, telefone e endereço, usando o UUID
- Consultar a senha do Wi‑Fi e os dispositivos conectados pelo endereço MAC
- Executar comandos arbitrários, alterar propriedades do equipamento e sequestrar a conta
- A vulnerabilidade foi reportada à Cox, que bloqueou a API em 6 horas e começou a corrigir o problema de autenticação
- Entre as mais de 700 APIs expostas, muitas forneciam funções administrativas, e todas tinham o mesmo problema de permissões
- Este caso mostra a fragilidade da camada de confiança entre o ISP e os equipamentos dos clientes
- Ainda continuo curioso sobre como exatamente meu modem foi hackeado. Também não consigo entender por que o atacante retransmitia o tráfego
- Teorias ou opiniões relacionadas são bem-vindas
Opinião do GN⁺
- Vulnerabilidade de segurança: este artigo mostra quão grave pode ser o impacto de falhas de segurança em um ISP. Em especial, recursos que permitem alterar remotamente as configurações dos dispositivos podem ser explorados de forma maliciosa.
- Segurança de API: reforça a importância da segurança de APIs. Vulnerabilidades como bypass de autenticação podem causar problemas de segurança sérios.
- Proteção de dados do usuário: alerta para o risco de informações pessoais dos clientes e configurações dos dispositivos serem expostas com facilidade. ISPs devem adotar medidas de segurança mais fortes para proteger esses dados.
- Compreensão técnica: ao explicar os detalhes técnicos de forma que até engenheiros de software iniciantes possam entender, o texto ajuda a aprender como detectar e corrigir vulnerabilidades de segurança.
- Apresentação de alternativas: para resolver problemas como esse, é importante usar equipamentos de rede e protocolos de segurança mais seguros. Vale considerar outros ISPs ou soluções de segurança.
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