Consertando minha caneca com Kintsugi
(fellerts.no)- Depois que uma caneca de café usada todos os dias por 10 anos quebrou em fevereiro de 2024, ela foi reparada ao longo de cerca de 4 meses com o tradicional kintsugi japonês e voltou a poder ser usada
- O processo consiste em colar e preencher a cerâmica quebrada com laca urushi, pó de madeira, abrasivos e massa de farinha, depois revelar o reparo com pó de ouro
- Embora o epóxi moderno possa ser mais rápido e mais forte, a segurança alimentar para uma caneca que receberia café quente era incerta, então foi escolhido um kit tradicional
- O trabalho real seguiu a sequência de colagem com mugi urushi, reparos com kokuso e sabi urushi, repetidas camadas de laca preta e acabamento com pó de ouro sobre bengal red urushi, enquanto temperatura, umidade e tempo de cura influenciavam o resultado o tempo todo
- Em cerâmica com acabamento brilhante, a lixa não funcionou bem, e pequenos erros de alinhamento, contaminação por óleo, pinceladas e o momento de aplicar o pó de ouro afetaram muito o resultado, exigindo tanto técnica quanto paciência
A caneca quebrada e a escolha pelo kintsugi
- A caneca era um objeto que acompanhou a época de estudante, o período em startups e o início da carreira, sendo usada diariamente por cerca de 10 anos
- No começo de fevereiro de 2024, ela caiu da bancada da cozinha e, ao tentar apará-la com o pé, acabou sendo chutada contra a parede e se despedaçou
- Colegas recomendaram o kintsugi, técnica tradicional japonesa de reparo, e cerca de 4 meses depois ela foi restaurada a um estado em que podia voltar a ser usada
O método básico do kintsugi
- Kintsugi é um artesanato tradicional japonês para consertar cerâmica quebrada
- Ele restaura rachaduras e partes faltantes misturando materiais como pó de madeira, abrasivos e massa de farinha à laca urushi natural
- Na camada final de laca, aplica-se pó de ouro ou prata para destacar deliberadamente as junções reparadas
- Em vez de esconder os defeitos, a técnica revela as marcas e a história do objeto, ligando-se à estética tradicional japonesa de celebrar a imperfeição
Por que escolher urushi tradicional em vez de epóxi
- Alguns praticantes amadores usam epóxi moderno em vez da laca urushi tradicional
- O epóxi pode criar uma união mais forte e também torna o reparo muito mais rápido
- Mas havia dúvidas sobre a segurança alimentar para uso em uma caneca que receberia café quente
- Para fazer o reparo do modo tradicional, foi comprado o kit inicial tradicional de kintsugi da TSUGU TSUGU
- Enquanto aguardava a entrega internacional, o autor assistiu repetidamente ao tutorial da TSUGU TSUGU
Colando os pedaços com mugi urushi
- A primeira etapa foi limpar os cacos, suavizar as bordas afiadas e recolocá-los no lugar
- Os guias eram voltados para cerâmica de barro, mas a caneca era de cerâmica brilhante, então a lixa não funcionou bem
- Foi usada uma lixa grossa de grão 200, mas uma lima diamantada provavelmente teria sido mais adequada
- O primeiro erro foi não perceber que a lixa não funcionaria bem na cerâmica brilhante
- Antes de colar, os pedaços foram testados com fita crepe para verificar encaixe, fragmentos faltando e pedaços pequenos demais
- Como o kintsugi consegue reconstruir bastante da estrutura, perder pequenos fragmentos não era um grande problema
Condições de cura e segurança do urushi
- As colas, pastas e lacas usadas no kintsugi são todas baseadas na resina da árvore urushi
- A laca urushi contém urushiol, o composto responsável pela toxicidade da árvore do verniz e da hera venenosa
- A maioria das pessoas é alérgica ao urushiol, por isso o uso de luvas é recomendado durante o trabalho
- O urushiol cura formando uma camada de laca muito dura e resistente a riscos em condições de cerca de 25°C e 75% de umidade relativa
- Foi criada uma câmara de cura com uma caixa de papelão, toalhas úmidas e um local aquecido, enquanto um sensor de CO₂ monitorava as mudanças nas condições
Problemas de alinhamento revelados durante a colagem
- O adesivo usado para unir os pedaços quebrados é o mugi urushi
- O mugi urushi é feito preparando uma pequena massa com farinha fraca e água, depois misturando aos poucos urushi cru até atingir uma consistência parecida com chiclete mastigado
- Com uma ferramenta como uma vareta de bambu, o adesivo foi aplicado nas bordas dos pedaços maiores, que então foram pressionados e fixados com fita crepe
- Seguindo a orientação de não colar muitos fragmentos de uma vez e começar pelos maiores, o trabalho foi dividido em duas sessões de colagem
- Os pedaços colados curaram por cerca de 2 semanas em uma caixa de papelão quente e úmida
- Se o adesivo que saiu para fora se desfizer ao ser raspado com uma lâmina, significa que endureceu o suficiente
- Se continuar pegajoso, precisa curar por mais uma semana
- Se nunca endurecer, pode ter sido contaminado por óleo, sendo necessário dissolver o mugi urushi com acetona e recomeçar
- Na segunda colagem, ficou evidente que a primeira havia ficado ligeiramente torta
- Um erro mínimo de alinhamento já dificulta a colagem posterior
- O problema foi não ter testado os outros pedaços antes de a primeira colagem endurecer
- Manchas na superfície brilhante podiam ser lixadas facilmente depois, mas isso talvez não fosse possível em cerâmica áspera sem esmalte
Preenchendo os vazios com kokuso e sabi urushi
- Depois de colar os pedaços, era preciso preencher novamente as partes faltantes da estrutura
- Havia uma grande perda de material perto do fundo da caneca, alguns fragmentos faltando perto da borda e até um furo atravessando a cerâmica
- Furos grandes com profundidade acima de 1mm foram preenchidos com kokuso
- O kokuso é feito misturando ao mugi urushi usado antes a mesma quantidade de pó de madeira e abrasivo
- Depois de misturado, ele tem textura e aparência de uma argila firme
- Foi aplicado em camadas de 0,5 mm nas rachaduras e cavidades, coberto com filme plástico e achatado com o dedo
- Cada camada curou por 1 semana antes de ser lixada para acompanhar a forma ao redor
- Foram necessárias duas camadas de kokuso para reconstruir a estrutura, e a segunda levou várias semanas para endurecer completamente
- É possível que o óleo mineral usado para limpar as ferramentas não tenha sido removido corretamente
- Mesmo uma quantidade muito pequena de óleo aumenta bastante o tempo de cura do urushi
Pequenas rachaduras e o sabi urushi de cura rápida
- Pequenos furos e rachaduras com profundidade inferior a 1mm foram preenchidos com sabi urushi
- O sabi urushi é feito adicionando água aos poucos ao abrasivo até obter uma textura de maionese firme e depois incorporando cerca de 60% de urushi cru em volume
- O sabi urushi endurece muito rápido e em menos de 10 minutos já fica rígido e inutilizável
- Foi preciso praticar algumas vezes antes de aplicá-lo nas rachaduras reais
- Como não foi dedicado tempo suficiente a essa etapa, pequenos furos e espaços ficaram nas emendas
- Eles não eram profundos o bastante para causar preocupação com vazamentos, mas continuaram como defeitos visuais
Laca urushi preta
- Depois de preencher os vazios e ajustar as rachaduras, começou o trabalho detalhado de acabamento da superfície final
- Várias camadas de laca urushi preta foram aplicadas sobre todas as áreas reparadas
- A urushi preta é feita mexendo o urushi cru para evaporar parte da umidade e depois adicionando pó de mica preta
- Com um pincel fino, o material foi aplicado com cuidado sobre o sabi urushi, mas essa foi a etapa mais difícil de todo o processo
- O pincel alarga conforme a pressão, abre nas curvas e exige atenção constante aos fios soltos e à quantidade de laca
- Pintar o interior da caneca foi especialmente difícil
- Depois de várias camadas de urushi preta, cada uma curando por alguns dias, a superfície foi alisada com lixa d'água
- Nos pontos em que a urushi preta foi aplicada diretamente sobre o esmalte cerâmico, e não sobre o sabi urushi, ela tendia a descascar em lascas
- A laca urushi não aderiu bem à superfície esmaltada
- Antes da colagem, teria sido melhor tornar as bordas da cerâmica mais ásperas ou lixar o esmalte ao redor das emendas com antecedência
Acabamento com bengal red urushi e pó de ouro
- A etapa final foi aplicar a última camada de laca que serviria de base para o acabamento dourado
- Para o acabamento em ouro, recomenda-se uma camada de base de bengal red urushi
- O texto apresenta isso como uma técnica antiga em que o ouro ganha uma tonalidade final melhor quando aplicado sobre materiais vermelhos ou terrosos
- O bengal red urushi é feito da mesma forma que a urushi preta, mas usando pó de mica vermelha em vez de mica preta
- Como essa era a camada final, não havia onde esconder erros, então a dificuldade das pinceladas foi ainda maior
O momento de aplicar o pó de ouro
- Depois de aplicar a camada de base bengal red, é preciso esperar até que ela deixe de estar líquida, mas continue pegajosa
- O tempo de referência era de cerca de 15 a 30 minutos
- No trabalho real, o autor esperou exatamente 30 minutos após a última pincelada antes de aplicar o pó de ouro
- A temperatura do ambiente era de 25,3°C, a umidade relativa de 71,3% e a concentração de CO₂ era de cerca de 480ppm
- Mesmo após 30 minutos, o bengal red urushi ainda estava um pouco líquido demais
- Aplicar o pó de ouro cedo demais fez a laca borrar
- O kit incluía pó de ouro muito fino e uma bolinha de seda pura, e a aplicação foi feita encostando o pó na seda e esfregando sobre a linha de bengal red urushi
- Quando o pó de ouro tocava a superfície, a linha vermelha imediatamente virava um dourado brilhante, mas em alguns trechos a pressão foi excessiva e a laca borrou, deixando o resultado bagunçado
A caneca voltou a ser usada
- Depois da etapa final, a caneca curou por mais alguns dias na caixa de urushi
- O resultado não ficou perfeito, mas a experiência prática com o kintsugi aconteceu e a caneca pôde voltar ao uso
- As falhas restantes e os erros de alinhamento também ficaram como marcas do próprio processo de reparo
1 comentários
Comentários do Hacker News
O motivo de as pessoas escolherem epóxi é que o urushi tradicionalmente é feito da seiva de poison oak e causa forte irritação na pele da maioria das pessoas. Foi daí que veio o nome urushiol
Especialmente quando se faz isso com crianças, é fácil espalhar pequenos traços durante o processo de kintsugi, e como é uma seiva hidrofóbica, também é difícil de limpar. Mesmo uma quantidade muito pequena pode causar reação em pessoas com pele sensível ou alergias severas
O epóxi pode ser suficientemente seguro para alimentos, e há dados no banco da FDA: https://www.cfsanappsexternal.fda.gov/scripts/fdcc/?set=Indi...
Produtos como MAX CLR também podem ser comprados na Amazon. Eu não usaria em forno acima de 300°F, mas na faixa da temperatura de ebulição parece ok, e epóxis bicomponentes aprovados pela FDA são amplamente usados em hospitais e instalações de produção de alimentos para revestir superfícies ásperas onde bactérias poderiam se esconder
O epóxi enfraquece e falha com o tempo, enquanto as peças que consertei com urushi/farinha/argila estão em uso diário há anos
Dependendo do objetivo, até epóxis que não são seguros para alimentos podem servir bem. Produtos mais espessos, como epóxi marítimo para reparos, ficam duros como pedra em peças decorativas. A toxicidade provavelmente é enorme e eu não gostaria disso perto de comida, mas pode ser suficiente para muitos dos trabalhos que as pessoas querem fazer com kintsugi
Laca de caju também é bem boa. Não é tão tóxica quanto o urushi e não exige um ambiente especial para curar. Se eu estivesse começando agora, provavelmente começaria com isso
Eu não tenho nenhuma vontade de tentar isso pessoalmente
Ou também me preocupa a possibilidade de, como aconteceu com o BPA, os fabricantes terem trocado por uma substância funcionalmente quase igual e potencialmente perigosa
Existe alguma base para acreditar que, daqui a alguns anos, EPA/FDA não vai concluir que esses epóxis também eram perigosos, em um caso tipo PFAS?
Se quiser ver exemplos, procure por Tsuge; os preços começam mais ou menos na faixa de US$ 200
Para um trabalho inicial, o resultado está realmente excelente. Minhas primeiras peças ficaram muito aquém disso
Faço kintsugi tradicional há cerca de 12 anos e devo ter algumas centenas de reparos bem-sucedidos. Quando comecei, quase não havia material ou orientação em inglês, mas hoje isso claramente se popularizou bastante, por motivos óbvios, e é um ambiente muito melhor para iniciantes
Ainda assim, provavelmente continua sendo a habilidade mais difícil e frustrante que já aprendi. É realmente difícil transmitir o quão minuciosas e quase impossíveis algumas junções podem ser. Dependendo do tipo de junção e preenchimento, a proporção entre meio e urushi muda, há uma quantidade enorme de técnicas e sutilezas a aprender, e no fim você precisa fazer muita coisa com base em intuição e experiência
Além disso, o material não tem praticamente nenhuma força de sustentação até a cura estar bem avançada. Então, em cada projeto, é preciso criar de forma criativa uma estrutura de suporte quase totalmente única. Se algo dá errado depois de aplicar o urushi, você precisa lixar com cuidado por horas e refazer, e então deixar curar novamente por dias ou semanas
Um reparo de objeto completamente estilhaçado, no limite da minha habilidade, leva umas 100 horas ao longo de 2 ou 3 meses. Mesmo uma quebra limpa e ideal em três pedaços facilmente leva 8 a 10 horas e várias semanas
Fiquei curioso se você aprendeu tudo sozinho, ou se encontrou um mestre
Se você estiver na Bay Area, há um excelente workshop de kintsugi quase toda semana no SF Zen Center: https://stonegoldcrafts.com/
Eu entrei no kintsugi enquanto consertava um vaso sanitário. É um ofício recompensador: https://thingsilearned.com/things/my-kintsugi-toilet/
O instrutor fez a gente usar epóxi, não pó de urushi. Não é surpreendente; se não fosse assim, acho que todos os participantes teriam tido uma irritação severa na pele
O texto fala das preocupações com segurança alimentar, mas, se me lembro bem, o epóxi usado no workshop não era um produto seguro para alimentos, e disseram que versões seguras para alimentos são fáceis de encontrar
Também não passamos por tantas etapas assim, como dividir vários tratamentos conforme o tamanho e o formato do dano. No fim, em poucas horas eu já tinha consertado uma peça inteira, o que foi bem diferente dos meses que o autor investiu para fazer direito
Ainda assim, o cuidado extra e o uso dos materiais corretos aparecem claramente. A caneca de crocodilo reparada no texto parece vários níveis melhor do que a minha
Não tenho relação com eles. Dei um passe de workshop introdutório de presente para minha parceira, e ela continua indo às aulas desde então
Perigoso. Urushi é, na prática, algo próximo da seiva de poison oak/poison ivy. Não é exatamente a mesma coisa, mas é da mesma família e o efeito é parecido
Não quero assustar ninguém, mas, se tiver interesse, basta imaginar todos os problemas que podem acontecer ao trabalhar com um tubo de seiva de poison ivy
Ainda assim, o urushi é excelente, e a variedade de coisas que dá para fazer com ele é realmente impressionante. Só não deve ser manuseado de forma precipitada
Minha esposa entrou recentemente no mundo do kintsugi e está aprendendo o método tradicional descrito aqui. Estou lendo estes comentários com interesse e vou repassá-los a ela
A maioria dos métodos ensinados nos EUA é basicamente o método de “relevo em ouro”, misturando pigmento dourado ao adesivo. Não fica lá grande coisa visualmente, mas é moderno e rápido
O método de “gold flush” leva um pouco mais de tempo e é mais próximo do autêntico, mas ainda assim não usa os materiais tradicionais mencionados neste texto
Alguém sabe onde conseguir materiais tradicionais para usar em ambiente de sala de aula? Em quantidade maior, de preferência com desconto. Não precisa ser uma escala enorme, só o suficiente para algumas aulas. Os kits têm quantidade muito pequena e são caros, então até um desconto por volume de 10–20% já seria o ideal
Eu tinha uma caneca com meu nome, que ganhei quando era criança. Um dia minha mãe quebrou a alça e decidiu colá-la de volta
Uma semana depois, ela me entregou chá quente nela e a alça se soltou, causando uma queimadura séria na minha perna. Desde então, fiquei um pouco receoso de reparar e continuar usando objetos para líquidos quentes
Recentemente tentei encomendar um kit de pó de urushi do Japão, mas o pedido foi cancelado porque disseram que agora é ilegal importar isso para os EUA
Mais alguém viu que, na foto “goldfinger”, pixelaram a impressão digital? Nota 10/10 em segurança operacional
Consertei uma caneca com epóxi e continuei usando por alguns anos, até que a alça quebrou de novo no mesmo ponto, caiu em cima do trackpad e destruiu o trackpad
Agora, quando uma caneca quebra, eu compro outra
Mesmo revendo isto, cianoacrilato parece ser um caso de uso perfeito. Existem produtos aprovados pela FDA como seguros para contato com alimentos, e dá para remontar todos os cacos no formato da xícara
Em cerâmica, cura em menos de 1 minuto. Estou falando por experiência própria. Usar outro método é desperdiçar tempo e energia
Se for uma caneca querida, usada há 10 anos, em vez de uma caneca de 2 anos, é muito mais provável que eu esteja disposto a empregar o nível de esforço descrito no texto. Mesmo que, em ambos os casos, eu queira consertá-la por apego e para continuar usando. Isso é trabalho de afeto
Mas o processo do OP me faz pensar na forma como lembramos das coisas. O ato de reviver um processo pode gerar um resultado próprio e um pouco diferente do original, e geralmente é isso que acontece. O que torna esse processo mais desejável é o tempo, pensamento e carinho investidos
Também me lembrou uma thread recente de comentários no Jaloponik. Era sobre por que hoje qualquer um consegue fazer 0–60 mph em menos de 4 segundos, mas isso não é tão impressionante quanto parece. A ideia central era que, antigamente, para chegar a esse nível, era preciso passar incontáveis horas aprendendo e repetindo para reduzir 0,1 segundo por vez
Admito que isso pode soar como gatekeeping, mas existe uma linha tênue entre gatekeeping e recompensar a verdadeira habilidade