- Documentos judiciais revelaram que o FBI não conseguiu fazer a análise forense de um aparelho apreendido de uma repórter por causa de um iPhone com o Lockdown Mode ativado
- O iPhone da repórter do Washington Post estava ligado no momento da apreensão, mas em Lockdown Mode, o que impediu a extração de dados
- Documentos do governo afirmam explicitamente que a Computer Analysis Response Team (CART) do FBI não conseguiu extrair dados desse iPhone
- O Lockdown Mode foi originalmente projetado para defesa contra spyware altamente direcionado, mas ficou demonstrado que ele também limita o acesso forense físico
- O caso mostra que os recursos avançados de segurança da Apple podem bloquear o acesso digital por parte de órgãos de investigação e evidencia a disputa entre o fortalecimento da segurança móvel e a perícia forense das autoridades
Visão geral do caso
- A casa da repórter do Washington Post Hannah Natanson foi alvo de busca e apreensão pelo FBI em janeiro de 2026, como parte de uma investigação sobre vazamento de informação sigilosa
- A investigação está ligada ao contratado do governo Aurelio Perez-Lugones, acusado de posse e repasse de informação confidencial
- O governo entende que Perez-Lugones foi a fonte que forneceu informação confidencial a Natanson
Dispositivos apreendidos e resultado do acesso
- Entre os dispositivos apreendidos estavam um iPhone 13, dois MacBook Pro, um disco rígido externo e um gravador
- O iPhone estava ligado e carregando, e a tela exibia a indicação ‘Lockdown Mode’
- Segundo os documentos judiciais, “por causa do Lockdown Mode, a CART não conseguiu extrair dados desse iPhone”
- Após a apreensão, o FBI permaneceu por cerca de mais de duas semanas sem conseguir acessar o iPhone
Significado técnico do Lockdown Mode
- O Lockdown Mode restringe anexos em mensagens, renderização web e conexões FaceTime para minimizar a superfície de ataque do iOS
- Ao conectar dispositivos externos, é obrigatório desbloquear o aparelho
- Isso bloqueia os principais caminhos de acesso de ferramentas forenses baseadas em conexão física, como Graykey e Cellebrite
- O CEO da empresa de perícia digital Garrett Discovery afirmou que “muitas técnicas avançadas de investigação são bloqueadas pelo Lockdown Mode”
Biometria e desbloqueio forçado por via legal
- O mandado de busca incluía autorização para usar à força impressão digital e reconhecimento facial para desbloquear aparelhos
- Natanson não usava biometria no iPhone e, com o Lockdown Mode ativado, nem sequer era possível tentar esse método
- Já o segundo MacBook Pro foi desbloqueado com sucesso por impressão digital
Dados que puderam ser acessados
- O FBI obteve do MacBook Pro desbloqueado fotos e gravações de voz de conversas no app Signal
- Ainda assim, mesmo desse notebook, ainda não foi possível obter uma imagem física completa (full physical image)
Disputa de segurança entre autoridades e plataformas
- Também foi noticiado que, em 2024, a Apple alterou o iPhone para reiniciar automaticamente após longos períodos sem uso
- Com isso, o aparelho entra no estado BFU (Before First Unlock), elevando a dificuldade da perícia forense
- Este caso fica registrado como um exemplo real de reforço de segurança de software funcionando em uma investigação
Posicionamento oficial
- Apple e Washington Post não responderam aos pedidos de comentário
- O FBI se recusou a comentar oficialmente sobre o caso
1 comentários
Comentários do Hacker News
Segundo este tuíte relacionado, o FBI acessou mensagens do Signal no MacBook de trabalho da repórter Hannah Natanson usando o Touch ID. Como o notebook permitia autenticação por Touch ID, puderam exigir legalmente o desbloqueio
Veja o link de explicação. Quando o notebook é fechado ou entra em repouso, ele grava a RAM no disco e desliga completamente. A retomada fica mais lenta, mas no primeiro desbloqueio a autenticação por impressão digital não é permitida, mantendo segurança em nível de cold boot
Caso relacionado
A polícia pode forçar fisicamente alguém a encostar o dedo, mas a pessoa teria o direito de se recusar a revelar qual dedo é o correto. Após algumas tentativas erradas, o aparelho bloqueia e passa a exigir a senha. Então eu brinco que seria melhor usar o nariz do meu cachorro
Quero poder ativar só alguns recursos, como bloquear chamadas FaceTime de desconhecidos, desativar prévias de links ou bloquear conexões de dispositivos externos com o aparelho bloqueado, sem querer o restante das restrições. Seria bom poder alternar essas opções individualmente.
Por exemplo, desativar o JIT de JavaScript prejudica o desempenho web e a bateria. Também bloqueia álbuns compartilhados e instalação de fontes personalizadas. Essa falta de ajustes granulares de segurança acaba enfraquecendo a própria segurança
Além disso, os pedidos do Screen Time também não funcionam. A notificação chega, mas não dá para responder.
Entendo por que a Apple projetou isso como tudo ou nada — se permitir uma única configuração arriscada, todo o modelo de segurança pode ruir.
Ainda assim, o maior incômodo é não conseguir saber se um problema foi causado pelo Lockdown Mode, então você acaba ligando e desligando isso o tempo todo
Com o Advanced Data Protection, é possível proteger dados do iCloud com E2EE, e o Face ID pode ser forçado, mas ao pressionar o botão de energia 5 vezes o aparelho muda para o modo PIN, que legalmente não pode ser exigido.
Se o Lockdown Mode bloqueou, isso significaria que o governo tinha um zero-day que não funciona no modo PIN?
Se o recurso consiste em desligar recursos, talvez fosse melhor chamar isso simplesmente de configuração.
A maioria dos usuários de iPhone não altera as configurações padrão. Um dos motivos de o Google pagar bilhões à Apple é justamente a configuração padrão de busca.
O Lockdown Mode não é o padrão, e quase ninguém o usa.
Se esse modo torna o iPhone mais seguro, então a configuração padrão acaba, na prática, facilitando invasões
Bloquear anexos em mensagens, chamadas FaceTime de desconhecidos e limitar recursos do Safari traz muito incômodo para usuários comuns.
Por isso, torná-lo padrão é irrealista e não ajudaria muito na segurança do usuário médio
Esse também pode ser um motivo para não ser a configuração padrão
Em alguns países da Europa, é permitido forçar alguém a encostar o dedo, mas é ilegal forçar a pessoa a manter os olhos abertos
Eu não conecto meu iPhone a nada além de energia.
Se existisse apenas um “modo de proteção contra acessórios externos”, eu ativaria imediatamente, mas a Apple avisa que “o aparelho não vai funcionar como de costume”
Veja post de 2014 e guia recente