1 pontos por GN⁺ 2025-10-23 | 1 comentários | Compartilhar no WhatsApp
  • Grandes bancos, como o JP Morgan, concederam à OpenAI uma linha de crédito de US$ 4 bilhões
  • A OpenAI é uma startup sem lucro, portanto, no modelo tradicional esse tipo de financiamento é arriscado
  • Do ponto de vista dos bancos, como os empréstimos tendem a ter maior risco de perda em média do que investimentos, a taxa de juros e a probabilidade de default são fundamentais
  • No entanto, a taxa aplicada à OpenAI (cerca de 5%) é equivalente à de grandes empresas com grande estabilidade
  • Na prática, os bancos emprestam com juros baixos porque há o efeito de garantia pela Microsoft como acionista principal

Visão geral do empréstimo de US$ 4 bilhões entre JP Morgan e a OpenAI

  • Em outubro de 2024, a OpenAI fechou um contrato de linha de crédito rotativa (revolving credit) de US$ 4 bilhões com o JP Morgan e outros bancos
  • A OpenAI é uma startup sem lucro, então esse tipo de empréstimo em grande escala não é típico
  • Em geral, o financiamento de startups costuma ocorrer por meio de investidores (capital próprio)

Comparação entre cenário de investidor e de credor

Perspectiva do investidor

  • Ao investir US$ 1.000 na OpenAI, o valor esperado (EV) é calculado da seguinte forma
    • Custo: US$ 1.000
    • 90% de chance: falência, retorno US$ 0
    • 9% de chance: crescimento de 10x, retorno US$ 10.000
    • 1% de chance: crescimento de 100x, retorno US$ 100.000
  • O valor esperado é positivo, então é uma estrutura de investimento potencialmente rentável no longo prazo
  • Embora a probabilidade de sucesso seja baixa e haja alto risco, pode ser uma estratégia de retorno quando distribuído em carteira

Perspectiva do credor (banco)

  • Sob as mesmas condições, emprestar US$ 1.000 a uma taxa anual de 5%
    • 90% de chance: falência, retorno US$ 0
    • 10% de chance (não falência): recuperação de principal e juros de US$ 1.050
  • Nesse caso, o valor esperado é negativo, ou seja, é uma estrutura com prejuízo médio
  • Para haver lucro, a probabilidade de inadimplência precisa ficar abaixo de 5%, uma hipótese muito otimista

Análise por meio de dados de mercado

  • É feita uma comparação com taxas de mercado para avaliar se a taxa de juros do empréstimo (cerca de 5%) é adequada
    • Taxa dos Treasuries dos EUA: cerca de 3,6% (1 ano), 3,94% (3 meses), entre outros
  • Comparando com as taxas de títulos corporativos por classificação de crédito, a taxa da OpenAI está no nível de empresas estáveis das faixas BBB a A
    • Ex.: HCA Inc (BBB) 4,99%, Ziraat Katilim (B+) 4,73%, Citigroup (A) 4,24%
  • Com base em dados de mercado de bonds corporativos (material do professor Damodaran), um spread de default de 1% corresponde a rating A-~BBB
  • Porém, isso tende a ser irracional para a OpenAI, já que ela tem índice de cobertura de juros negativo (prejuízo operacional)

Situação financeira da OpenAI e o papel da Microsoft como acionista principal

  • A receita anual da OpenAI é de US$ 3,6 bilhões, mas a empresa pode ter déficit superior a US$ 5 bilhões por ano
  • Também existe a projeção de aumento de receita para US$ 11,6 bilhões no futuro, mas não está claro quando haverá virada para lucratividade
  • O que importa para os bancos não é lucro ou número de usuários, mas apenas a capacidade de pagamento do empréstimo
  • No caso de default, os bancos podem assumir o controle societário, e hoje os acionistas principais são: Microsoft (28%), fundação sem fins lucrativos da OpenAI e funcionários (52%), demais investidores (20%)
  • Existe grande chance de a Microsoft entrar para apoiar em caso de falência da OpenAI (lucro líquido do ano passado: US$ 88 bilhões)
  • Como há uma situação semelhante a emprestar como se fosse um crédito AAA da Microsoft, torna-se possível para os bancos concederem juros baixos (5%)

Conclusão

  • A taxa de crédito corporativo baixa aplicada à OpenAI, no nível de grandes empresas, é devida ao respaldo da Microsoft nos bastidores
  • Embora pareça um empréstimo da OpenAI na superfície, na prática é uma estrutura de emprestador com base no crédito da Microsoft
  • Por isso, apesar de parecer incoerente quando analisada apenas por indicadores financeiros superficiais, trata-se de uma decisão baseada em interesses estratégicos

1 comentários

 
GN⁺ 2025-10-23
Opinião do Hacker News
  • Não é nada incomum uma empresa como a OpenAI, com receita e capital suficientes, captar dívida; isso é extremamente comum. A pergunta “o investidor não deveria colocar todo o capital?” está errada. A maioria das empresas combina financiamento com ações e dívida, e o cálculo de EV também está incorreto. Como a dívida é prioridade em relação às ações em uma falência, bancos grandes (como o JPMC, entre outros) já supõem que é possível recuperar x%, e não 0%. Por fim, o JPMC não olha apenas o ROI de um crédito de curto prazo; por meio desse empréstimo, busca-se construir um relacionamento de longo prazo visando emissão futura de títulos, advisory de M&A e IPO.

    • No início, como parecia um texto de blog de tecnologia, até aceitei a análise fraca, mas ao descobrir que era de um site financeiro especializado, a confiança caiu imediatamente. O empréstimo em formato revolver de US$ 4 bilhões costuma ficar a maior parte sem uso; na prática, quando o drawdown acontece, ele é quitado rapidamente. Não é para construir data centers e sim para sincronizar timing, com função parecida com cartão de crédito. Se a situação piorar, os covenants do contrato de crédito entram em vigor e há renegociação de condições com o banco.

    • Também é importante notar que isso é um revolver (linha de crédito rotativa), não uma dívida emitida em nota, e paga-se juros somente sobre o que foi usado; isso é muito comum no mercado de venture. Por exemplo, se a empresa precisa de caixa antes da próxima rodada, ela usa o revolver para se manter e paga logo após levantar a próxima rodada.

    • A parte importante é que não há explicação de por que a empresa pegou esse empréstimo, e sim uma suposição de que seria uma fonte de capital equivalente ao investimento. Eu vejo essa concessão de crédito como claramente orientada à gestão de risco. Se a OpenAI ficar presa a um caso jurídico e precisar de um settlement bilionário, essa reserva de liquidez é necessária. Como investidor, também acho que precisa haver um plano claro de contingência para a empresa em situações de emergência; várias startups conhecidas em fase de crescimento já tinham essa linha de crédito garantida.

    • O próprio artigo também é pobre em pesquisa: afirma que a OpenAI terá receita de US$ 3,6 bilhões este ano e prejuízo de US$ 5 bilhões, mas os dados reais indicam US$ 4,3 bilhões de receita no 1º semestre de 2025 e US$ 2,5 bilhões em prejuízo; o alvo é US$ 13 bilhões de receita anual e queima de caixa de US$ 8,5 bilhões. Link da matéria relacionada: Reuters

    • Tem cara de resultado de pesquisa pessoal do autor.

    1. Mesmo se a OpenAI falir, o JPMC recupera parte do valor do empréstimo; quando eu precifico CDS, sempre usei recovery de 40%, e um especialista de uma faculdade famosa de finanças disse o mesmo número sem explicar o motivo. <newline>2) Como é revolver, nem todo o valor é integralmente utilizado. <newline>3) Ao contrário, se a OpenAI for bem-sucedida e fizer aquisições de concorrentes menores (ou for adquirida pela MSFT, por exemplo), o JPMC fica com boas taxas por atuar como advisor financeiro em várias frentes. <newline>4) Se o cenário piorar e houver necessidade de captação adicional, o papel do JPMC cresce. <newline>5) O pior cenário seria se, em vez de empresa de IA, fosse uma fraude no nível da Enron e um call center; como há um negócio real de IA, para o JPMC ainda existem muitas oportunidades de deal.
    • A taxa de recuperação de 40% é baseada em empresas reais de manufatura, com fábrica e estoque não vendido. Os cenários de quebra da OpenAI são dois: primeiro, o setor de LLM entra em recessão com quase nenhum ativo real e a MSFT nem participa de aquisição; segundo, só a OpenAI vai mal, e aí vira um desgaste lento e contínuo. Mesmo assim, se reduzir a dívida rotativa antes, o recovery de 40% não é algo completamente absurdo.

    • Quanto mais credores houver e quem tiver precedência, o valor recuperado muda. No pricing de CDS, 40% de recuperação é só uma expectativa média de portfólio de grande escala, e em casos individuais pode ser diferente.

    • A recuperação varia conforme garantias e tipo de empréstimo: automóveis em torno de 70%, indústria manufatureira em 40~50%, cartão de crédito em dígito único; o agregado de portfólio costuma convergir perto de 40%. Na prática, antes da falência, os direitos de crédito frequentemente já são repassados para investidores de crédito ruim, então o número 40% pode estar errado, mas não é absurdo.

    • O item 3 — “se a OpenAI for bem-sucedida e for adquirida via M&A, o JPMC leva uma grande comissão” — é, na verdade, a mesma lógica que o autor do artigo já defendeu.

    • Ao ponto 4, em resposta à pergunta “quem daria mais crédito à OpenAI se o cenário piorar?”, só me vêm à mente a Arábia Saudita/Emirados Árabes e, talvez, a SoftBank.

  • O próprio cálculo numérico está errado<newline>Por exemplo, é apresentado que para um empréstimo de US$ 1.000, a empresa quebra com 90% de chance e retorna 0; se crescer 10x com sucesso, há 9% de chance de retorno de US$ 1.050; se crescer 100x ainda tem 1% de chance de retornar US$ 1.050. Porém, na prática, em cenários de grande crescimento o JPMC ganha enorme receita de taxas ao ganhar o mandato de underwriter de IPO ou banco de M&A.

    • Mesmo se a OpenAI quebrar, não consigo pensar que haja 90% de chance de ela ser vendida abaixo de US$ 4 bilhões.

    • Com 800 milhões de usuários ativos semanais, prejuízo entre US$ 10 e 15 bilhões e sem publicidade ainda implantada, acredito que receita de ads será introduzida no setor de LLM em breve. Portanto, não faz sentido calcular 90% de chance do valor acionário ir a zero; isso é o deal mais fácil e a melhor operação de relacionamento para o JPMC.

    • O ponto central é que não se trata de uma transação financeira, mas de uma transação de relacionamento.

    • Se a OpenAI quebrar, o credor que emprestou dinheiro fica em situação muito melhor que o acionista: em falência, os credores sêniores recebem antes dos acionistas.

  • Eu acho que os bancos emprestam com base no valor da propriedade intelectual (IP), mais do que em futuros lucros da companhia; nas startups que conheci, mesmo com o plano de negócios quebrando, muitas vezes a liquidação do empréstimo é possível só com a IP.

    • Isso depende bastante do caso: entre as startups falidas em que trabalhei, houve casos em que a IP tinha valor praticamente zero; fica a dúvida sobre quem pagaria pela execução de uma ideia fracassada.

    • Conseguir empréstimo com IP como garantia não é simples na prática; eu e outros founders já tentamos bastante, mas os bancos quase sempre nos deram um não.

    • Também é uma pergunta válida: quem compraria a IP de uma empresa falida?

    • O Silicon Valley Bank usou ativamente esse modelo, e faliu não por perdas maiores em crédito, mas por falha na gestão de risco de juros.

    • Usar IP como colateral não faz sentido por causa do longo prazo para converter em dinheiro; se a OpenAI quebrar, essa IP perderá de valor com maior competição e desaceleração.

  • Em um empréstimo dessa escala, o caráter é mais político do que técnico, e o propósito pode ir além da lógica econômica pura.

  • O artigo da Reuters que diz que a OpenAI terá US$ 3,6 bilhões de receita este ano e prejuízo de US$ 5 bilhões e expectativa de US$ 11,6 bilhões de receita no próximo ano é de ano passado; o artigo mais recente de 2025 fala em “US$ 13 bilhões de receita anual e queima de caixa de US$ 8,5 bilhões” (notícia de 2024, notícia de 2025)

    • Ainda em prejuízo considerável, fico com dúvida de como se afirma que virou lucro.

    • No artigo anterior já dizia que haveria grande aumento de receita no próximo ano, mas na prática já está acima do esperado.

  • O ceticismo financeiro sobre a OpenAI não me convence; ela já está destinada a virar uma big tech. O ponto é escala, timing e custo. Se amanhã todo o financiamento parar, é totalmente plausível imaginar um cenário em que reduz-se P&D e o prejuízo cai até 75%. Concorrentes como Anthropic também estão captando bem investimento. O risco é não conseguir arcar com GPU cara e investimento de datacenter sem inovação radical.

    • Não é um problema tão simples: com US$ 8 bilhões de receita e 800 milhões de usuários, o ARPU (receita por usuário) é US$ 10. Nos próximos 5 anos foi prometido investimento acumulado de US$ 1 trilhão (US$ 200 bilhões anuais), o que exigiria ARPU de US$ 200. A Meta está em US$ 50, Google em até US$ 100 (o nível que a OpenAI precisaria seria o mais alto entre as big techs globais); seria uma estratégia de ARPU 3~4x maior que Meta/Google, e a viabilidade é altamente questionável.
  • Para os bancos, isso significa ter obtido a IP mais valiosa e única em décadas. Na prática, só um punhado de empresas com muito capital consegue acessar essa IP. Se eu fosse banco, também emprestaria nesse tipo de oportunidade; claro, existe a chance de a IP ir a zero, mas acho que a chance de ficar sem valor é baixa. O banco poderia recusar receber equity da MSFT se a OpenAI quebrar? Como a OpenAI fica com poder de barganha tanto com o banco quanto com a MSFT ao receber proposta dela, mesmo uma falência por causas não ligadas à IP (como insolvência por excesso de R&D) não é problema para o credor.

    • FTFY: sempre pensei que era a IP mais exclusiva dos EUA, mas vale lembrar que outros países (ex.: INA=China) também disputam ferozmente essa área.
  • O fato de a OpenAI quebrar não significa que o valor recuperado pelo JPMC será 0; depende das condições contratuais específicas.

    • É quase certo que o montante recuperado pelo JPMC não será 0; seja US$ 750 ou US$ 400, não é perda integral.
  • Bancos grandes oferecem crédito com condições aparentemente favoráveis a startups e executivos para assegurar oportunidade de bancar IPOs; com um IPO pode-se faturar centenas de milhões de dólares.