Um excelente texto em que Sahil, um dos primeiros funcionários do Pinterest, relata de forma serena os 10 anos de crescimento, fracasso e recuperação da Gumroad, startup que ele fundou após abrir mão de suas stock options.
Recomendo muito que fundadores leiam pelo menos uma vez.
Abaixo vai um resumo para quem está com pressa.
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A Gumroad é uma plataforma de e-commerce que permite que qualquer pessoa, incluindo criadores, venda produtos facilmente para clientes. Basta ter um link. Não é preciso abrir uma loja.
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Foi feita rapidamente em um fim de semana, compartilhada no Hacker News, e no primeiro dia recebeu 52.000 visitantes.
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Pouco depois, ele decidiu largar o emprego abrindo mão das stock options, levantou US$ 1,1M com angels e VCs, e alguns meses depois, em maio de 2012, a KPCB liderou uma rodada adicional de US$ 7M.
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Na época, Sahil tinha 19 anos, fundou a empresa sozinho, e com 3 funcionários havia US$ 8M na conta.
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O time cresceu, o foco foi no produto e os números mensais subiram, mas a partir de certo ponto pararam de crescer.
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Para salvar o produto, 75% dos funcionários foram demitidos. Entre eles estava seu melhor amigo.
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Depois disso, o TechCrunch publicou uma matéria sobre as demissões na Gumroad, e o fracasso se tornou oficial.
Qual foi o problema?
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De 2012 a 2015 houve crescimento, mas não no ritmo esperado de uma empresa financiada por venture capital. Não aparecia a velocidade de crescimento necessária para levantar uma Série B de mais de US$ 15M.
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Nesse tipo de negócio, crescer menos de 20% ao mês já é sinal vermelho.
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Em janeiro de 2015, o saldo em caixa caiu para menos de 18 meses de runway. Ele disse aos 20 membros da equipe que dali em diante as coisas seriam difíceis, porque precisavam atingir os números para uma Série B, e então começaram a fazer todo esforço possível para crescer.
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Durante 9 meses ninguém saiu da empresa, todos trabalharam mais duro do que nunca, mas ainda assim não conseguiram atingir os números.
Reduzir ou fechar?
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Olhando para trás, foi até uma sorte não terem atingido os números. Se tivessem conseguido, provavelmente teriam captado mais dinheiro e talvez enfrentado um fracasso ainda maior.
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As opções da Gumroad eram:
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Encerrar o negócio, devolver aos investidores o dinheiro restante e partir para outra.
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Reduzir o tamanho da empresa e continuar operando.
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Colocar a empresa à venda para tentar um acquihire.
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A decisão final foi reduzir a empresa de 20 para 5 pessoas e mudar para um escritório menor.
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Junho de 2015 - receita mensal de US$ 89K, lucro bruto de US$ 17K, custos operacionais de US$ 364K ==> prejuízo de US$ 351K
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Junho de 2016 - receita mensal de US$ 176K, lucro bruto de US$ 42K, custos operacionais de US$ 32K ==> lucro de US$ 10K
Agora como um lifestyle business
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A Gumroad já não era mais uma startup financiada para crescer rápido. Agora todos os funcionários tinham ido embora, e ele estava sozinho.
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Sem time, sem funcionários... os amigos haviam virado bilionários, mas o seu negócio agora era apenas um modesto lifestyle business. Não era isso que ele queria fazer, mas não podia deixar afundar.
( Nota: lifestyle business é um negócio que permite ao fundador ganhar uma renda acima de certo nível, mas não enorme, e viver o estilo de vida que deseja )
- Ele se isolou do mundo e não falava com ninguém. Todos os dias acordava, fazia suporte ao cliente, corrigia bugs e às vezes até pedia ajuda a engenheiros que já tinham saído da empresa. Quando terminava o trabalho do dia, ia se exercitar ou, se ainda restasse alguma energia, tentava escrever romances de fantasia, que era seu hobby, mas na maioria dos dias não conseguia.
Um novo começo
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Em 27 de novembro de 2017, chegou um e-mail da principal investidora, a KPCB, dizendo que queria vender de volta por US$ 1 as ações da Gumroad que possuía. Outro investidor também participou e comprou mais.
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( Agora livre da pressão dos investidores ) abriu-se o caminho para que a empresa se tornasse um negócio independente, em vez de seguir a lógica do go-big-or-go-home.
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A partir daí, passou a ser possível montar um pequeno time e fazer a Gumroad crescer devagar como um negócio significativo, mais focado em criadores. Talvez fosse difícil virar uma empresa bilionária, mas isso já não importava mais. Especialmente porque, para os criadores que vendem na Gumroad, isso importava menos ainda.
Compartilhar as finanças
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Depois das demissões, ele não falou sobre a empresa com ninguém e, após deixar San Francisco, sentiu como se também tivesse deixado a comunidade de startups.
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Para voltar a participar da comunidade, começou a compartilhar publicamente no Twitter as informações financeiras da empresa.
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Abril de 2018 - GMV: US$ 4,2M (queda de 2%) / Revenue: US$ 273K (queda de 2%) / Gross profit: US$ 65K (alta de 34%)
Em busca de uma terceira via (non-binary), que não seja nem sucesso nem fracasso
"Nos últimos anos, minha medida de sucesso era criar uma empresa de US$ 1 bilhão, mas percebi que esse era um objetivo ruim."
"Não importa o quão excelente seja seu produto, nem quão rápido você crie funcionalidades. O mercado em que você está é que determina seu crescimento."
"Eu fracassei, mas tive sucesso em muitas outras coisas. Fiz com que muito dinheiro chegasse aos criadores e pude me concentrar apenas em construir o melhor produto para nossos clientes, sem ficar preso às metas para a próxima rodada de investimento."
2 comentários
A Gumroad ficou enorme agora.
Obrigado pelo resumo :)